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| A expansão do cultivo de soja nos cerrados do Nordeste |
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Por Airton Sabóia Valente Junior Segundo dados da revista BNB Conjuntura Econômica n. 19 (BANCO DO NORDESTE DO BRASIL, 2008), a cultura da soja no Nordeste ultrapassou a da cana-de-açúcar em Valor Bruto da Produção (VBP), em 2008, alcançando R$ 3,4 bilhões, ou seja, 17,2% a mais que os R$ 2,9 bilhões obtidos pela cana-de-açúcar. Conforme se observa no Gráfico 1, o VBP da soja vem evoluindo progressivamente nos últimos 20 anos. Nesse período, ocorreram declínios apenas em 2005 e 2006, devido à expressiva queda nos preços ocasionada pelo elevado estoque de passagem nos Estados Unidos no biênio, e em 2009 por conta da crise financeira mundial. Em contraposição, o comportamento da curva do VBP da cana-de-açúcar, a partir de 1995, segue uma trajetória declinante e com mais irregularidades em comparação com a soja.
Gráfico 1. Evolução dos VBPs da Cana-de-açúcar e da Soja, Período de 1990 a 2009. Fontes: IBGE, 2009a; Banco do Nordeste do Brasil, 2009. Nota: Valores até 2007 atualizados pelo IGP-DI da Fundação Getúlio Vargas. A expansão da produção de soja no Nordeste resulta de um conjunto de fatores, destacando-se:
Produção triplicada A produção de soja no Nordeste registrou incremento médio anual de 12,7% entre 1999 e 2008 (últimas dez safras), subindo de 1,6 milhão para 4,8 milhões de toneladas, sendo que a partir de 2003 esse crescimento foi mais intenso, com aumento anual médio de 13,9%. Enquanto isso, a produção de cana-de-açúcar registrou evolução média anual de 3,7% entre 1999 e 2008, aumentando de 53,4 milhões para 74,1 milhões de toneladas (IBGE, 2009a; 2009b). Essa evolução é explicada pelo maior aumento de área plantada de soja (8,2% a.a.) comparado ao da cana-de-açúcar (1% a.a.), bem como pelo comportamento nos rendimentos dessas lavouras. A produtividade da soja evoluiu 4,2% a.a., enquanto a da cana-de-açúcar melhorou em 2,1% a.a. no mesmo período (Tabela 1).
Tabela 1. Variação Anual de Área Plantada, Produção e Rendimento das Lavouras de Soja e Cana-de-açúcar entre 1999 e 2008. Fonte: IBGE, 2009a; Banco do Nordeste do Brasil, 2009. Vale destacar que a lavoura da cana-de-açúcar é antiga no Nordeste, razão pela qual foi menor a sua evolução em termos de área plantada e rendimento, porquanto a atividade já está consolidada na região. Por sua vez, a soja encontra-se ainda em expansão, resultando em maiores variações anuais de área plantada. Para melhoria do rendimento, tem-se procurado implantar variedades de cultivares mais adaptadas às condições dos cerrados nordestinos, o que tem elevado a produtividade média das lavouras de soja. O comportamento dos preços também justifica a significativa ascensão do VBP da soja comparativamente ao da cana-de-açúcar. Enquanto a curva dos preços dos principais derivados da cana-de-açúcar (álcool e açúcar) apresentou-se declinante a partir dos anos 2005/2006, os preços da soja registraram comportamento inverso, ou seja, ascendente. Se compararmos os preços do período de abril/2006 a abril/2009, constata-se alta de 95,4% no indicador Cepea/Esalq-Paraná para a soja, enquanto para o açúcar, o álcool hidratado e o álcool anidro o indicador Cepea/Esalq registrou baixa de 9,2%, 24,4% e 27,6%, respectivamente, afetando negativamente o VBP da cana-de-açúcar (CEPEA/ESALQ, 2009). No que tange à pesquisa e ao crédito, vale destacar o papel do Banco do Nordeste do Brasil (BNB), no apoio à sojicultura na região. Desde a criação do Fundo de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (Fundeci), o BNB vem apoiando a realização de pesquisas tecnológicas e a difusão de seus resultados. Para a soja, já foi liberado R$ 1,9 milhão, beneficiando a Bahia, o Ceará, o Maranhão, a Paraíba e o Piauí, conforme distribuição proporcional explicitada no Gráfico 2. Pioneirismo, distribuição e crédito A Bahia foi o estado pioneiro na produção de soja na região e o maior beneficiário dos recursos para pesquisa nesse setor, com 41,3% do total, seguido do Piauí (28,7%) e do Maranhão (17%). Os projetos de pesquisa foram direcionados para a difusão da cultura nesses estados, para a seleção de cultivares adaptadas aos cerrados e resistentes à ferrugem asiática, para o manejo e tratamento dos solos e manejo de fungicidas para o controle da ferrugem asiática. Os resultados dessas pesquisas têm impulsionado a produção de soja na região, alcançando melhores níveis de produtividade (inclusive, em algumas safras, superando a média brasileira) com manejos mais adequados e sustentáveis da lavoura.
Gráfico 2. Recursos Liberados pelo Fundeci para a Pesquisa sobre a Cultura da Soja, por Estado. Fonte: Banco do Nordeste do Brasil, 2009a. Quanto ao crédito de longo prazo, o BNB é o principal financiador para o setor produtivo da região. No período de 2000 a 2008, o BNB liberou R$ 928 milhões para a plantação de soja (Tabela 2). O Maranhão, a Bahia e o Piauí, juntos, concentraram 98,8% desses recursos, com 34,9%, 32% e 31,9%, respectivamente. A concentração do crédito nesses estados deve-se à grande disponibilidade de áreas de cerrado, tipo de vegetação mais adaptável à cultura da soja na região. Os outros estados respondem por valores inexpressivos. No caso do Ceará, por exemplo, o financiamento para a atividade se dá apenas no cultivo de sementes na região do Vale do Jaguaribe. Associado a políticas públicas e outros investimentos privados, o crédito constitui importante instrumento para promoção do desenvolvimento. É o que vem ocorrendo nos cerrados nordestinos. Investimentos públicos nessa área estimulam os produtores a expandir a produção, por vislumbrarem a possibilidade de crescimento de suas respectivas atividades, gerando assim um ciclo virtuoso de desenvolvimento econômico. Tabela 2. Valores Contratados para a Cultura da Soja junto ao BNB, de 2000 a 2008,
Fonte: Banco do Nordeste do Brasil, 2009b. Irradiação do desenvolvimento A expansão da soja no cerrado nordestino contribuiu para irradiar o desenvolvimento local. Algumas cidades já vislumbram essas mudanças, como é o caso de Luís Eduardo Magalhães e Barreiras, na Bahia, Balsas, no Maranhão e Uruçuí, no Piauí. Os investimentos públicos em infraestrutura urbana, estradas, pontes e energia elétrica, dentre outros, são alavancados pelo incremento da arrecadação de impostos decorrente dessa atividade. Por outro lado, o setor de serviços demanda maiores investimentos privados nas áreas de hotelaria, restaurantes, lazer, saúde, transportes, armazenamento, assistência técnica, e o comércio se desenvolve no fornecimento de máquinas e insumos agrícolas, além de ensejar a instalação de estabelecimentos comerciais em outros ramos de atividade. O crescimento econômico se faz notar pelas mudanças nessas áreas de produção. No Piauí, onde a expansão agrícola para os cerrados ocorreu mais recentemente, constatam-se essas transformações. Os municípios que se localizam entre os vales dos rios Parnaíba e Gurgueia vêm apresentando modificações significativas por conta da produção de grãos. Estradas estão sendo asfaltadas para o escoamento da produção, inclusive com a criação da primeira Parceria Público-Privada do Piauí para a construção da Transcerrados, rodovia que corta a maior zona produtora de grãos do estado. As fazendas estão se estruturando mediante construção de suas sedes, que dispõem de silos para armazenagem, dormitórios e restaurantes para os empregados, agroindústrias para o primeiro processamento dos grãos e, em alguns casos, de algodão, maquinários para utilização nas lavouras, dentre outras benfeitorias. Nas cidades pode-se observar a ampliação dos serviços de hotelaria, restaurantes, postos de combustíveis, hospitais, etc. Além disso, em alguns municípios verifica-se a melhor distribuição urbana, em áreas planejadas, com a construção de habitações mais confortáveis e já dispondo de redes de esgoto e energia elétrica. Como era de se esperar, esse crescimento se dá de forma gradual, chegando inicialmente em alguns setores da economia. Assim, observam-se ainda deficiências em termos de infraestrutura. Em alguns locais, as estradas ainda não foram asfaltadas, dificultando o transporte dos grãos. Pontes ainda não foram construídas, sendo necessário o uso de balsas, com ônus para o produtor, obrigado a pagar fretes mais caros. A comunicação, em muitas fazendas, se dá via rádio, devido à ausência de cobertura de telefonia móvel no município. Mas, a depender do interesse dos produtores, os cerrados nordestinos ainda detêm potencial de expansão, o que necessariamente propiciará a vinda de novos investimentos para a região. A intenção de aumentar a área cultivada é evidente na maioria dos produtores, principalmente devido aos preços atraentes da soja atualmente, além do câmbio favorável, já que boa parte da soja é exportada. A contribuição do BNB para a expansão do segmento de soja nos cerrados se dá por meio de financiamento à produção, tanto para investimentos como para custeio, além de aporte de recursos em ciência e tecnologia. Nesse sentido, a cada dia que passa o BNB mais se fortalece como instituição de desenvolvimento regional. (*) Pesquisador do BNB/Etene REFERÊNCIAS BANCO DO NORDESTE DO BRASIL. ETENE. Ambiente de Fundos Científicos, Tecnológicos e de Desenvolvimento. Fortaleza: BNB, 2009a. BANCO DO NORDESTE DO BRASIL. ETENE. Central de Informações Econômicas, Sociais e Tecnológicas. Fortaleza: BNB, 2009b. BANCO DO NORDESTE DO BRASIL. Conjuntura Econômica, n. 19, out./dez. 2008. Fortaleza: BNB, 2008. BANCO DO NORDESTE DO BRASIL. Conjuntura Econômica, n. 20, jan./mar. 2008. Fortaleza: BNB, 2009.
IBGE. Produção agrícola municipal. Disponível em: http://www.ibge.gov.br . Acesso em: 27 abr. 2009a. Levantamento sistemático da produção agrícola. Disponível em: http://www.ibge.gov.br. Acesso em: 27 abr. 2009b. |
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