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A BUSCA DE CIENTISTAS AOS ÓLEOS E ESSÊNCIAS DA CAATINGA-I

Multinacional de cosméticos compra essência de alecrim-pimenta do Ceará

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A busca de cientistas aos óleos e essências da caatinga, iniciada na década de setenta pela UFC, hoje se transformou em produtos e subprodutos importantes para a indústria e a saúde.

Por Ribamar Mesquita para a AGÊNCIA PRODETEC ∏∏ [março 2004]

Desde meados da década de setenta plantas como o prosaico capim santo, largamente utilizado como substituto do café pelas populações de baixa renda do Nordeste, passou a merecer a atenção de pesquisadores da Universidade Federal do Ceará. O mesmo ocorreu com outras espécies da rica flora nordestina, a exemplo do alecrim-pimenta, da pitanga, da aroeira, do aveloz, marmeleiro e tantas outras. Uma pesquisa financiada pelo Banco do Nordeste, através do Fundo de Desenvolvimento Científico e Tecnoló¬gico (Fundeci), identificou propriedades de substancial valor comercial em várias destas plantas, obtendo ainda dados e definindo métodos para viabilizar sua exploração econômica a partir da produção de óleos para variados fins na agroindústria e nas indústrias farmacêutica, de alimentos, perfumaria, cosmética e produção de combustível.
O grupo de pesquisadores, integrado por especialistas de várias áreas do conhecimento, abrigados em diversos departamentos da UFC, cobriu uma área superior a 500 mil quilômetros quadrados do sertão nordestino, tendo realizado 575 coletas em 783 diferentes localidades. Do total, foi selecionada uma parte representativa de 11 óleos essenciais que se revelaram com potencial em função das substâncias de valor co¬mercial nele encontradas. É o caso do alecrim-pimenta.
O alecrim-pimenta que nasce no sertão sem ser semeado está se transformando em divisas para o Brasil e pode ajudar também no combate ao dengue e ao mal de Chagas. A exportação de óleo essencial de uma planta nativa da caatinga é fato inédito no Ceará. A proeza é da Pronat – Produtos Naturais, responsável pela domesticação da planta, sua multiplicação e aproveitamento industrial, a partir de uma base instalada em Horizonte, região metropolitana de Fortaleza.
A façanha foi concretizada agora em dezembro quando foram entregues, em Minneapolis (EUA), 200 litros de óleo de alecrim-pimenta encomendados pela Aveda, uma grande fabricante mundial de cosméticos naturais, com mais de duas mil lojas próprias somente nos Estados Unidos. "Esperamos que isso seja apenas o começo", afirma Renato Inneco, um dos sócios Pronat, que pretende entrar também no mercado de defensivos naturais, aproveitando o alecrim-pimenta como matéria-prima.
O óleo de alecrim-pimenta, por enquanto produzido apenas no Ceará, onde também se encontra o único plantio do mundo, serve tanto para a indústria de cosméticos como às indústrias químico-farmacêutica e alimentícia. Isso significa que há um mercado franco à frente, tanto assim que muitas empresas já manifestaram interesse em adquirir o produto. Mas toda produção presente e futura já está comprometida. O preço situa-se em torno de US$ 50 por litro, mas tende a aumentar com a certificação orgânica que a empresa está prestes a conseguir.
Propriedades e usos variados na indústria
Conforme o pesquisador Sérgio Horta Mattos, outro sócio da empresa, o óleo essencial de alecrim-pimenta é muito rico em timol e carvacrol, sendo um dos melhores anti-sépticos naturais do mundo. Na indústria farmacêutica, por exemplo, ele entra em remédios destinados a combater pano branco, caspa, espinha, sarna, impingem, ferimentos, mau cheiro nos pés e axilas. Ele também é um conservante natural e funciona como excelente antioxidante.
Toda a tecnologia em torno da planta foi desenvolvida no Ceará, "depois de se quebrar muito a cabeça", como recorda Sérgio, frisando que somente no Nordeste o alecrim-pimenta se apresentou economicamente viável. Quando levada a outras regiões a experiência mostrou que a produção do óleo e o teor de seus princípios ativos caíram bastante. O teor do timol, por exemplo, baixou mais de 50% em cultivos experimentais feitos no sudeste do País.
Quanto à produtividade, ela é muito baixa no campo. A Pronat conseguiu 20 toneladas de massa verde num hectare, que, depois de processadas podem render 130 litros de óleo essencial. Ao preço atual significa faturamento bruto da ordem de U$ 7,1 mil por hectare. Muito mais que qualquer grão, mandioca ou cana-de-açúcar, conforme dados apurados junto ao IBGE.
- Mas não se entusiasme muito, não, porque a tecnologia para o cultivo do alecrim-pimenta orgânico não é nada fácil", adverte Renato Inneco, que também é pesquisador da UFC. Os ciclos da planta são complicados e foram dominados ao longo de quase 30 anos de estudos. Da produção da muda até o horário do corte e da adubação, tudo influencia a produção cujo ciclo situa-se em torno de quatro meses.

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Certificação e ampliação dos campos
Tendo em vista o sucesso e a demanda pelo produto, a Pronat amplia a parte agrícola do projeto, que é toda irrigada e conduzida organicamente. Com novo aporte de recursos do BNB, pretende dobrar a área de alecrim-pimenta de 4 para 8 hectares, a de capim santo, de 1 para 2 hectares, e a de citronela de 3 para 5 hectares.
Além disso, a empresa já está trabalhando na certificação orgânica tanto na parte agrícola como na parte industrial através do Instituto Biodinâmico. Como todo o processo adotado na empresa já é exclusivamente orgânico, Sérgio Horta acredita que o período de certificação, normalmente em torno de quatro anos, seja antecipado para antes do final de 2005. A certificação orgânica é uma exigência da Aveda - que só compra óleo essencial orgânico -, e agrega maior valor ao produto em relação ao produto convencional.
Conforme o coordenador do FUNDECI, José Maria Carvalho, a certificação é um processo demorado e oneroso, mas que vale a pena pela agregação de valor que representa. A estimativa dos empresários é de que no caso do alecrim-pimenta essa elevação chegue a 60% entre a matéria-prima e o óleo essencial.
No total, foram investidos cerca de R$ 400 mil entre o financiamento do Banco e a contrapartida da empresa que gera seis empregos fixos, diretos, e outros dez temporários. Entre a liberação dos recursos pelo BNB e a exportação do primeiro tambor (200 litros) em dezembro o tempo foi de apenas um ano, afirma Sérgio, lembrando a correria para a compra, montagem e teste dos equipamentos, aquisição de insumos, preparo da matéria-prima e obtenção do produto final.
De incubadoura ao mercado formal
A história da Pronat é recente. Começa quando os sócios, amigos e pesquisadores Sergio Horta e Renato Inneco, se juntaram a outro amigo, o engenheiro Flávio Nogueira, para instalar uma empresa incubada no campus da UFC, em Fortaleza. O objetivo era aproveitar a tecnologia agronômica que já dominavam para produção do óleo essencial do "Lippia sidoides", conhecido popularmente no Nordeste como alecrim-pimenta.
Em 1999, concorreram e ganharam uma vaga no Padetec. Em junho de 2000, já instalados naquele parque tecnológico, estavam pensando na viabilização do projeto. Dois anos depois, estabeleciam uma parceria com a firma norte-americana que garantiria a compra do óleo e a base tecnológica relativa à destilação de plantas aromáticas. Logo depois, o Banco do Nordeste aprovava o projeto para a parte de campo e instalação da destilaria, feita em tempo recorde e dentro de padrões internacionais, inclusive quanto aos aspectos ambientais já que utiliza gás natural.
Bioinseticida contra mal de Chagas e dengue
As propriedades do alecrim-pimenta também estão sendo utilizadas em formulações destinadas a combater os vetores do dengue (aedes aegypti) e mal de Chagas ("barbeiro"), além de uso amplo como defensivo agrícola quando agregadas a substâncias retiradas de outras plantas. A pesquisa é realizada pela Universidade Federal do Ceará, com o apoio do BNB/FundeciI, e a parceria da Pronat e da Prefeitura de Pentecoste (CE).
De acordo com o engenheiro-químico Paulo Teles, do FUNDECI, a empresa vai utilizar o hidrolato de alecrim-pimenta. Trata-se de um subproduto líquido obtido quando da extração do óleo essencial da planta, por arraste a vapor. O óleo essencial de alecrim-pimenta tem forte ação antimicrobiana contra fungos e bactérias.
Para a pesquisa de controle, foram elaborados dois bioinseticidas à base dos hidrolatos de alecrim-pimenta e de capim citronela (Cymbopogon winterianus). Ambos estão sendo utilizados em dez bairros de Pentecoste em tratamentos com diferentes formulações e repetições pelo sistema de pulverização conhecido popularmente como fumacê. Os dados parciais indicam que todos os tratamentos estão sendo altamente efetivos no controle do mosquito adulto transmissor do dengue.
No tocante ao controle do "barbeiro" (inseto contaminado com o protozoário Trypanossoma cruzi, agente da doença de Chagas), o experimento está sendo conduzido na localidade de Macacos, zona rural de Pentecoste, com resultados parciais igualmente promissores na redução da incidência dos insetos.
Patente de defensivo
Fruto de experimentos anteriores, a Pronat já patenteou produto que se presta ao combate de doenças que atacam cajueiros, castanha, coqueiros, melão e flores. A Embrapa, responsável pela sua aplicação, já deu indicações de sua eficácia no caso do caju, idêntica à obtida pelo produto químico comercial. Isso significa muito para a economia e o produtor nordestino. Primeiro, porque implicará menos importação de produtos hoje usados; segundo, mais saúde para as culturas e os consumidores, pois a formulação é natural e não química.
A citronela, planta natural de Java que se adapta bem no Nordeste, além do alecrim-pimenta, entra na composição desse defensivo agrícola natural. Na formulação entram também o capim santo e o nim, espécies igualmente cultivadas na propriedade arrendada pela Pronat, em Horizonte, 45 km de Fortaleza.
A multinacional norte-americana que está adquirindo toda a produção de alecrim-pimenta também se interessou em importar o óleo essencial de capim santo e de outras plantas, a exemplo da verbena (em processo de adaptação no semi-árido) que produz um aroma de limão usado na perfumaria, e da mil-folhas que entra na composição de antiinflamatórios e cujo óleo essencial chega à bagatela de US$ 1.200 por litro.
De Mossoró a Tabuleiro do Norte
O alecrim-pimenta é encontrado na vegetação do semi-árido nordestino, especialmente na área entre os municípios de Mossoró (RN) e Tabuleiro do Norte (CE) e matas marginais de tabuleiros litorâneos. O sertanejo chama o Lippia Sidoides Cham. (verbenaceae) também de "estrepa cavalo" e faz dela remédios diversos. Seu uso nas Farmácias Vivas, programa difundido pela UFC com o apoio do BNB e prefeituras, tem apresentado excelentes resultados, como se pode constatar na farmácia de Pentecoste (CE). O óleo essencial do alecrim-pimenta, que é extraído das folhas, tem alto teor de timol (60%) que até pouco tempo era fabricado principalmente por síntese, a partir de derivados do petróleo.
Na Universidade Federal do Rio Grande do Norte, a tese de doutorado da professora Elisa Bittencourt, do Departamento de Engenharia Química, inclui a extração do óleo essencial do alecrim-pimenta utilizando gás carbônico pressurizado, método inovador que garante 100% de pureza. Na odontologia, o alecrim-pimenta passou a ser mais novo aliado no combate à placa bacteriana.

Para saber mais:

BNB/FUNDECI - José Maria Marques Carvalho – (85) 299.3033
"Óleos essenciais de plantas do Nordeste", Edições UFC, coleção Ciência 1, Fortaleza, 1981.
Projeto Farmácias Vivas (85) 288.94.28

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Março 2004

A BUSCA DE CIENTISTAS AOS ÓLEOS E ESSÊNCIAS DA CAATINGA-II


SAGA SERTÃO ADENTRO

No meio da década de setenta, contanto com o apoio do BNB, CNPq e outros órgãos, um grupo de cientistas da Universidade Federal do Ceará (UFC), integrado por agrônomos, químicos, farmacêuticos, embrenhou-se sertões adentro para identificar plantas do semi-árido com potencial econômico e farmacológico e possibilidade de se transformarem em novas opções para a agropecuária nordestina. Das espécies coletadas, algumas estão apresentando bons dividendos trinta anos depois. Outros nem tanto. Continuam no anonimato, apesar do potencial.
A busca dos cientistas na caatinga começou em 1975, mas o programa encerrou-se somente em 1979. Os trabalhos abrangeram reconhecimento, coleta, identificação e registro e estudo com vistas a determinar suas propriedades, rendimento e composição de óleo essencial. Do dessecamento de 150 plantas nativas ou já cultivadas no semi-árido foram obtidos cerca de 500 óleos. Bamburral da serra, jaborandi, canela-de-cunhã, marmeleiro, aroeira, ve¬lame, mentrasto e dezenas de outras espécies, colhidas entre o Maranhão e o norte de Minas Gerais, após identificadas botanicamente, passaram por um processo de extração por arraste com vapor, produzindo o óleo que sofre processos de secagem, análise, separação e identificação estrutural de componentes, com a avaliação dos resultados. O seu rendimento em óleo variou, nas análises, de 0,03 a 4%.
Para o economista e professor Sydrião Alencar, Superintendente do Banco do Nordeste para a Área de Estudos e Pesquisas (ETENE), além do pioneirismo no aspecto científico, a pesquisa foi um marco na parceria BNB/UFC, desde que apresentou perspectivas animadoras para o apro¬veitamento de óleos essenciais de plantas re¬gionais, que representam opções novas para o semi--árido.
Nos cinco anos do projeto, o Banco alocou, através do FUNDECI, recursos não-reembolsáveis equivalentes a US$ 1 milhão, a preços de Dez/2003.
Descoberta de novos óleos
O objetivo dos técnicos encarregados do programa era oferecer um projeto destinado ao aproveitamen¬to industrial e comercial de plantas da rica flora regional, até então pouco estudadas. E a julgar pelo interesse demonstrado por muitos em¬presários, os resultados desse trabalho ainda renderão muitos frutos para a economia regional. Até porque, ele propiciou a descoberta de vários óleos essenciais de relevância econômica que podem ser utilizados como fonte de matéria-prima para vários segmentos industriais.
É o caso, por exemplo, entre outros, da cânfora, detectada no velame (croton sp), substância largamente utilizada nas indústrias de plástico, vernizes, explosivos, farmacêutica e de cosméticos; estragol, constituinte principal de canelas silvestres do Norte, utilizado na indústria de perfumaria, fotográfica e farmacêutica; limoneno, constituinte principal do óleo essencial do pilocarpus jaborandi, com largo uso na indústria de solventes e tintas, e como aromatizante; e do óleo de marmeleiro, que pode ser usado como solvente e na indústria química e como material de partida para síntese de diversos compostos, inclusive adoçantes artificiais, conforme os autores da pesquisa.
Outros óleos essenciais estudados continham eugenol – muito presente na alfavaca -, cujas propriedades anestésicas foram objeto de estudos e trabalhos por parte de especialistas da Escola Paulista de Medicina. Por outro lado, alguns constituintes desses óleos colocam plantas como o marmeleiro no rol daquelas com potencial para serem aproveitadas como fonte não convencional de energia.
O arbusto conhecido por canela-de-cunhã, do gênero croton, muito abundante no Serra da Ibaiapaba, área que separa o Ceará do Piauí, apresenta grande potencial econômico. Os próprios pesquisadores constataram, na época, o seu uso intensivo como aromatizante e edulcorante na fabricação de cachaça e de "batidas", um tipo rapadura sofisticada com formato de uma bisnaga de pão. O óleo da canela-de-cunhã revelou grande semelhança com a essência de anis ou erva-doce, importada pelo Brasil.
A análise do mentrasto mostra que seu óleo essencial, embora de baixo rendimento, pode ter grande relevância econômica por que um de seus principais constituintes químicos tem atividade inseticida. Já no bamburral constatou-se alto teor de eucaliptol, substância largamente empregada na indústria farmacêutica, de perfumaria e desinfetantes domésticos. Trata-se de uma espécie que cresce abundantemente no Ceará e no Rio Grande do Norte, sem que ninguém lhe atribuísse maior atenção.
Os resultados das 82 análises de plantas selecionadas entre as 575 coletadas foram reunidos num livro editado pela Universidade Federal do Ceará. Nele consta as características físico-químicas dos óleos essenciais e sua composição química, o nome científico e a denominação popular das plantas e sua classificação botânica. e rendimento de óleo essencial de cada uma. Relaciona também as plantas coletadas, os principais compostos de óleos essenciais e suas respectivas fontes alternativas, bem como quadros sobre a importação e exportação brasileira de óleos essenciais, plantas aromáticas e seus derivados, em 1978.
Quanto ao trivial capim santo, cujo prestígio aumentou substancialmente, a ponto de já freqüentar gabinetes de executivos e líderes políticos (diz a sabedoria popular que se trata de excelente calmante), seu óleo essencial ganhou prestígio mundo afora, vendido tanto para modestas fábricas de alimentos como a grandes multinacionais farmacêuticas e de alimentos.

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Março 2004

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