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CACAU: APÓS CRISE, TRANSFORMAÇÃO E MERCADO EM ALTA

Fustigada por pragas, doenças, preço baixo, falta de crédito, a produção de cacau no Nordeste decresceu 27,7% entre 1996 e 2006, mas nos últimos anos o setor experimenta grandes transformações e hoje se apresenta promissor, inclusive com a possibilidade de cultivo da planta na região semiárida.

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Terreiro de secagem das amêndoas de cacau, Bahia.

por Ribamar Mesquita ∏∏ Fortaleza [JUN. 2012]

O Nordeste reduziu em mais de um quarto sua produção de cacau entre os censos agropecuários de 1996 e 2006, com queda da área plantada por causa de fatores diversos que prejudicaram os produtores e a consequente recuperação da lavoura. Contudo, nos últimos anos, o mercado brasileiro vem passando por importantes transformações a partir do aumento do consumo per capita global de cacau, redução do preço da amêndoa e de novas atitudes quanto ao beneficiamento e comercialização do produto.
No período intercensitário, a maior dificuldade enfrentada pelos cacauicultores foi sua descapitalização, o que os impediu de adotar práticas mais avançadas de produção e manejo de variedades resistentes e mais produtivas.
Um informe recente divulgado pelo BNB-Etene acerca do comportamento da cultura do cacau, disponível no portal www.bnb.gov.br/etene/publicacoes, mostra que a produção e a área cultivada sofreram retrocesso entre 1995/96 e 2006. A queda foi de 27,7% causada por problemas como redução dos preços do cacau no mercado internacional, pragas, condições climáticas, políticas econômicas governamentais e falta de crédito.
Nos anos oitenta, a Bahia era um dos maiores produtores de cacau do mundo com safras de até 400 mil toneladas anuais e movimentação financeira de cera de R$ 2 bilhões a preços atualizados, conforme estimativa da Secretaria de Planejamento do Estado.
Em 2006, a safra regional de cacau totalizou 155,6 mil toneladas contra 215,5 mil toneladas dez anos antes, queda que implicou menor participação do Nordeste na produção nacional (de 89% para 77,5%). Mais recentemente, em 2009, a safra alcançou 137,9 mil toneladas, avaliada em R$ 672,9 milhões.
Os dados do IBGE apontam para uma safra de 159 mil toneladas, com rendimento de 304 kg/ha, em 2011/12, informa a Central de Informações Econômicas, Sociais e Tecnológicas do BNB.
Pesquisa e agregação de valor
Segundo o informe do BNB-Etene, o mercado atual para a cultura do cacau se apresenta promissor, recomendando-se aos produtores maior atenção às exigências do mercado em termos de artigos de maior valor agregado e apelo ecológico, bem assim ao uso de técnicas adequadas de plantio e manejo da lavoura.
Com a produção declinante, o Nordeste passou a importar matéria-prima e exportar produtos com maior valor agregado, além de intensificar as pesquisas voltadas para aumentar as possibilidades de uso do fruto.
Nesse sentido, o BNB tem empreendido esforços para expandir o cultivo de cacau no Nordeste. O objetivo é atender às demandas interna e externa pelo produto, especialmente o do tipo fino, que alcança os melhores preços, e facilitar a inserção dos produtores no mercado internacional, como acontece agora com o Assentamento Terra Vista, de Arataca, Sul da Bahia, responsável pela produção orgânica de cacau de alta qualidade.
Os assentados estão participando, de 31 de outubro a 4 de novembro, do Salão Mundial do Chocolate, em Paris. A perspectiva, de acordo com Joelson Ferreira, presidente da cooperativa local, é colocar cerca de 25 arrobas de cacau fino das 70 arrobas que o Assentamento produz.
O sucesso do pessoal de Arataca está associado aos esforços do governo estadual através do programa Cacau para Sempre, cujo objetivo é apoiar e incluir social e produtivamente mais de 10 mil famílias baianas. Para isso, foca a recuperação da lavoura via fortalecimento estrutural, logístico e produtivo para a produção do cacau de qualidade e da conservação do sistema cabruca.

Cultura cacaueira no semiárido

Uma das experiências para expansão do cacau fora da Mata Atlântica é executada pela Embrapa no Vale do São Francisco, em Petrolina (PE), já apresentando bons resultados. A meta da pesquisa é aclimatar o cacaueiro às condições do semiárido nordestino e permitir o seu cultivo em áreas irrigadas.
Com isso, pretende-se oferecer ao produtor do médio São Francisco alternativa ao plantio tradicional da manga, da uva e da banana hoje predominantes na região.
No caso do cacau, o projeto "Introdução e Avaliação de Cultivos Alternativos para as Áreas Irrigadas do Semiárido Brasileiro" apresenta resultados promissores nos primeiros ensaios realizados no município de Petrolina (PE).

Cacau irrigado

Segundo o responsável pelo projeto, agrônomo Paulo Roberto Coelho Lopes, da Embrapa Semiárido, foram implantadas cinco áreas experimentais com cacau, em 2007. Essas áreas já frutificaram e a expectativa é de que se possa produzir cacau irrigado no Vale do São Francisco, atingindo-se a produtividade de 200 arrobas por hectare.
Outro pesquisador, o também agrônomo José Maria Marques de Carvalho, do BNB-Etene-Fundeci, órgão financiador do projeto, sustenta que as plantas apresentam aspecto saudável sem a presença de doenças nem sintomas da vassoura de bruxa, a principal doença da cultura do cacau.
Além do cacau, cujo cultivo é feito em regime de sombreamento com bananeira, o projeto estuda também fruteiras de clima temperado como maçã, pera, caqui e ameixa, bem como a oliveira.
Experiência semelhante à de Petrolina está sendo conduzida no Vale do Jaguaribe (CE), onde os fruticultores iniciaram um plantio experimental de cacau em 2010. Conforme os técnicos, as condições edafoclimáticas da região são favoráveis ao plantio do cacaueiro.
Na região baiana conhecida por Baixo Sul os produtores também estão inovando com a introdução do consórcio cacau/seringa/banana.

Perspectivas

Para o secretário de Planejamento da Bahia, Sérgio Gabrielli, a cadeia produtiva do cacau apresenta boas perspectivas. "Em projeções baseadas na curva de consumo dos últimos 40 anos, verifica-se que, até 2017, o mundo demandará um acréscimo em torno de 650 mil toneladas de cacau. E isso sem considerar o incremento significativo no consumo de chocolate de cacau no Brasil, China e Rússia", observa.
Segundo o secretário, o consumo de cacau por pessoa, no Brasil, saltou de 400 gramas, em 2003, para quase dois quilos, em 2012. Esses dados indicam que há uma oportunidade para ampliar a produção, tanto para o mercado interno quanto para o externo.
Outra boa noticia anunciada por Gabrielli é a Medida Provisória 565 que, entre outras coisas, viabiliza a prorrogação das dívidas dos produtores de cacau e possibilita linhas de crédito especiais com recursos do BNB-FNE. Hoje, são mais de 32 mil produtores no Estado, que respondem por 70% da produção nacional de cacau, mas o Brasil continua importando a matéria-prima de outros países para suprir suas necessidades internas. Foram 48 mil toneladas no primeiro semestre de 2012, vindas principalmente da Costa do Marfim, Gana e Indonésia.
A Bahia tem o maior potencial do país para produzir e processar cacau, fazendo o processamento primário de 95% da safra nacional (transformação da amêndoa em torta, manteiga e licor). Mas está de olho no mercado de chocolates e doces, concentrada no Sul, que movimenta cerca de R$ 8 bilhões por ano, pois tem mão de obra qualificada e vantagens como a biofábrica de produção de mudas.
Conta, também, com a ampliação do parque industrial e a implantação de indústrias para chocolates finos e outros derivados, segmento com bom potencial pela agregação de valor e repercussão variada ao longo de toda a cadeia produtiva.

Veja Também: CHOCOLATE PARA O MUNDO VER

por Mônica Holanda ∏∏ Salvador [JUL. 2012]

Exemplo de como o Brasil vem contornando as dificuldades na produção de cacau e buscando uma nova imagem frente ao mercado, o Salon du Chocolat reuniu, pela primeira vez na América Latina, produtores, indústrias, comerciantes e consumidores da iguaria em Salvador, capital baiana.
O evento, de origem francesa, considerado o maior e mais tradicional do setor, já percorreu quatro continentes, atraindo cerca de três milhões de visitantes. Com 17 anos de existência e mais de 90 edições ao redor do mundo, sediadas em cidades como Paris, Nova Iorque, Tóquio, Moscou, Xangai, Madrid, Cairo, Marselha e Bordeaux, o Salão reúne chocolatiers renomados de vários cantos do planeta e apresenta obras primas derivadas do cacau e do chocolate.
Na pauta, palestras sobre os diversos aspectos que envolvem a cultura do cacau até a sua transformação no produto final, aulas com chefs, agenda cultural e debates sobre a produção cacaueira, além de uma visita técnica a fazendas de cacau em Ilhéus, no Sul da Bahia, contemplando desde o cultivo do cacau e seleção das amêndoas até o produto final. Marcam o evento ainda atrações musicais, uma homenagem ao centenário de Jorge Amado, apresentações culturais do Pará, Espírito Santo e Bahia (estados produtores de cacau) além de um desfile que reúne talentos da moda e do chocolate para a elaboração de peças de costura.
Na mesma ocasião do encontro, Salvador recebeu o I Fórum Internacional do Cacau e Chocolate, que debateu o futuro do setor, desafios e perspectivas para produtores e indústrias, com presença de especialistas internacionais. Em discussão, temas relativos à cadeia produtiva e ao desenvolvimento sustentável do setor, área em que o país é destaque, a exemplo do sistema de cultivo Cabruca, que promove o plantio de 350 mil hectares apenas no estado. De acordo com a avaliação do presidente da Câmara Setorial do Cacau e do Instituto Cabruca, Durval Libânio, "a sustentabilidade e a agregação de valor são fundamentais para o cacau brasileiro, pois nos diferencia do resto do mundo".
Produção da terra de Jorge Amado - A Bahia é responsável por 70% do cacau brasileiro. Embora o Brasil tenha sido responsável pela produção de 170 mil toneladas de cacau em 2011 e seja o único país que possui toda a cadeia produtiva do cacau (além de ser o 5º maior produtor de cacau do mundo e o 4º maior consumidor de chocolate), ações da magnitude do Salon du Chocolat ainda não haviam sido promovidas no Brasil.
A realização do Salão no estado foi resultado da iniciativa conjunta da Event International, Amma Chocolate, Instituto Cabruca e Associação dos Produtores de Cacau (APC), com apoio do Governo do Estado da Bahia e da Comissão Executiva da Lavoura Cacaueira (Ceplac).
Como ponto forte na escolha da Bahia para sediar o evento, está o fato de a região abrigar as fazendas mais organizadas e o maior centro de pesquisas sobre o cacau do mundo. Além disso, existe o esforço do governo em fomentar as atividades do setor. O Plano de Desenvolvimento e Diversificação Agrícola na Região Cacaueira do Estado da Bahia (também conhecido como PAC do Cacau) gerou incentivos que liberaram, em 2008, cerca de R$ 2,2 bilhões, devendo beneficiar os produtores até 2016.
Segundo Durval Libânio, presidente da Câmara Setorial do Cacau e do Instituto Cabruca, "a Bahia tem hoje a maior capacidade do mundo para a produção de cacau fino e de integrar turismo, conservação do meio ambiente, cultura, cacau e chocolate. Ou seja, temos razão de sobra para investirmos na criação desta aliança e quem sabe posteriormente avançar para uma cooperação com a África e a Ásia", afirma. Ele completa: "o cacau brasileiro de qualidade vem ganhando espaço no mercado internacional, dando origem a chocolates sofisticados, de excelente procedência e com alto valor agregado".
Edmon Lucas, chefe do Gabinete do Governador, disse na ocasião do lançamento do Salon du Chocolat que a cacauicultura vive um novo momento, com uma nova geração preocupada em agregar valor à produção. "O encanto da juventude com a experiência dos mais velhos foram fatores chaves para que o evento se realizasse na Bahia. É uma comunhão que favorece o desenvolvimento comum, que é a cacauicultura", acrescentou Edmon Lucas, referindo-se aos organizadores do Salon du Chocolat. O secretário Wilson Brito, do Desenvolvimento e Integração Regional, reforçou que o empenho do governo do Estado é no sentido de garantir a abertura e a consolidação de importantes mercados para o cacau baiano.
Para o governador Jaques Wagner, a realização do Salão do Chocolate na Bahia é um passo fundamental para compartilhar com os visitantes o valor do estado e a expertise na produção do cacau. "Aqui se faz um dos melhores chocolates do mundo. Temos cacau bom e chocolate bom para mostrar", comentou o governador, que também disse que a realização do evento foi fruto da vontade dos produtores e dos gestores das secretarias de Turismo (Setur), Domingos Leonelli, e da Agricultura, Irrigação e Reforma Agrária (Seagri), Eduardo Salles.
O cacau "verde" do sul baiano - Líder na produção brasileira de cacau, a região do Sul da Bahia tem como aliada em seu desenvolvimento econômico fatores extremamente valorizados e cada vez mais comuns no mercado do século XXI: a sustentabilidade e a conservação ambiental. O método escolhido é o sistema agroflorestal de plantio de cacau Cabruca, que colabora substancialmente para a manutenção do bioma Mata Atlântica e é a opção utilizada em cerca de 70% dos 565 mil hectares de área plantada com cacau no sul do estado.
De acordo com este modelo, presente na região há dois séculos e meio, os cacaueiros se desenvolvem à sombra das árvores da Mata Atlântica, o que auxilia na conservação das espécies florestais e da fauna silvestre. O manejo sustentável traz ainda benefícios como proteção contra déficit hídricos, melhor ciclagem de nutrientes, redução da erosão do solo e do uso de fertilizantes, além do aumento da longevidade dos cacaueiros.
O Cabruca impulsionou a região como uma das áreas de preservação de espécies mais importantes do país, sendo atualmente o maior bloco de Mata Atlântica conservado no Nordeste. Esta manutenção, garantem os especialistas, beneficia a continuidade da própria atividade econômica. Segundo o fundador do Instituto Cabruca, Durval Libânio, "conservar essas matas, juntamente com uma atividade agrícola, abre um leque de possibilidades importantes para a região, que precisa diversificar sua economia. Podemos trabalhar com turismo ecológico e rural, móveis de madeira certificada, além de serviços ambientais, como sequestro de carbono e conservação de biodiversidade, entre outras possibilidades", explica.
Em reconhecimento ao papel ecoambiental, social e preservacionista do modelo, o Cabruca está prestes a se tornar "Indicação Geográfica (IG) Cacau Cabruca Sul da Bahia", iniciativa que ganhou maior visibilidade do público durante o Salão. O registro de Indicação Geográfica (IG) é conferido a produtos ou serviços que são característicos do seu local de origem, o que lhes atribui reputação, valor intrínseco e identidade própria, além de distingui-los em relação aos seus similares disponíveis no mercado. Uma vez registrado, o cacau gerado na região será reconhecido pela sua qualidade diferenciada, com agregação de valor e desenvolvimento econômico à região.
O reconhecimento já conta com o apoio de 1.500 produtores do Sul da Bahia e diversas entidades representativas do setor, como a Associação dos Produtores (APC) e a Ceplac (Comissão Executiva do Plano da Lavoura Cacaueira). "Este é um momento de grande importância para todo o setor no Estado. É hora de unirmos forças para fazer com que o cacau produzido no sul da Bahia seja reconhecido e que haja agregação de valor ao nosso produto", comenta Adriana Reis, secretária executiva adjunta do Instituto Cabruca, uma das entidades envolvidas no projeto da IG.

Instituto Cabruca

Responsável pela defesa e conservação do cultivo sustentável e naturalista proporcionado pelo sistema Cabruca, o Instituto Cabruca atua há cinco anos no Sul da Bahia. Além de promover a conservação das cabrucas - o cultivo da lavoura sob as grandes árvores da Mata Atlântica, o Instituto desenvolve trabalhos de valorização da qualidade do cacau brasileiro. Entre os projetos amparados pela entidade estão aqueles com foco na certificação socioambiental, produção orgânica, fabricação de chocolate em nível local, e aumento no percentual de cacau usado no chocolate brasileiro.

SOBRE O CACAU

>Oriundo da América Central e cultivado há quatro séculos no Brasil, inicialmente no Pará, e depois na Baia e em outros estados, o cacau se espalhou por vários países
>Segundo a FAO, desde 1990, o Brasil vem ocupando a quinta maior produção dentre os países, atrás de Costa do Marfim, Indonésia, Gana e Nigéria.
>De uma participação (1986) de 22% da produção global do fruto, o Brasil caiu para menos de 10%.
> 72% dos informantes do Censo de 2006, na Bahia, possuíam área colhida de cacau menor que 10 ha e foram responsáveis por 41 mil toneladas da produção local, 26% do total estadual. Por outro lado, 9,2 mil entrevistados com área colhida entre 10 e 100 ha, produziram 78,9 mil toneladas, 50,74% da produção estadual.
>Baianos com área plantada de cacau menor a 10 hectares representaram 74% dos produtores, mas responderam por apenas 21% da produção do Estado. A maior parte do cacau produzido na Bahia, 57%, teve origem de 13 mil propriedades com área colhida de 10 a menos de 100 hectares.
> A planta alcança normalmente de 4 a 8 metros de altura e copa variando de 4 a 6 metros de diâmetro. São reconhecidos três grupos botânicos do cacau, o Forasteiros Amazônicos, Crioulos e o Trinitários, sendo o primeiro comumente cultivado no Brasil
> O cacaueiro começa a produzir no segundo ano após o plantio, porém, somente entra no regime de franca produção a partir do quinto ano.

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