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NORDESTE INOVADOR: NA TRILHA DO NOVO

O fato de estar na periferia dos centros desenvolvidos e enfrentar dificuldades de natureza variada, que vão da escassez de recursos e infra-estrutura precária até índices sócio-econômicos insatisfatórios, não impediu o Nordeste de saltar obstáculos em busca do novo. Em vários pontos de sua rede urbana, tendo como base a universidade, a Embrapa e outros centros de pesquisas, começam a aparecer produtos com tecnologias de ponta e iniciativas inovadoras.

AGÊNCIA PRODETEC ππ Fortaleza [Jun. 2007]

Convivendo com muitas épocas num mesmo espaço, o jovem empreendedor que lidera o comboio de turistas aventureiros pelas dunas do litoral do Nordeste, guiado por moderno GPS, passa ao lado de lugares primitivos, onde a energia elétrica é apenas promessa e o contato com o resto do mundo se faz ainda através de um antigo rádio de pilha. Esse contraste é sentido na pele por muitos inovadores da região. Como os paraibanos responsáveis, desde a década passada, pela proeza de vender software na Europa e ver a surpresa do interlocutor quando diz que sua base de trabalho é Campina Grande, nordeste do Brasil.

O fato de estar na periferia dos centros desenvolvidos e enfrentar dificuldades de natureza variada, que vão da escassez de recursos e infra-estrutura precária até índices sócio-econômicos insatisfatórios, não impediu o Nordeste de saltar obstáculos em busca do novo. Em vários pontos de sua rede urbana, tendo como base a universidade, a Embrapa e outros centros de pesquisas, começam a aparecer produtos com tecnologias de ponta e iniciativas inovadoras.

O surto renovador nordestino está na adolescência ainda. Começou há vinte anos via instalação dos parques tecnológicos com o apoio do CNPq, universidades e Banco do Nordeste. Era apenas uma incubadora nos idos de oitenta. Hoje, são mais de 40 em operação da Bahia ao Maranhão reunindo cerca de 300 empreendimentos. Dessas estruturas já saíram muitos produtos e processos inovadores, dando margem ao surgimento de novos mercados pela aproximação de pesquisadores e empresários. quando não é o próprio pesquisador, muitos com mestrado e PhD, que vira empreendedor a mostrar os efeitos práticos de suas pesquisas.

É o caso do cientista Augusto Guimarães, campeão nacional de inovação na categoria pequena empresa, ano passado, através de sua Nuteral. A empresa transformou-se hoje em referência na produção de suplementos nutricionais em pó para recuperação e manutenção do estado nutricional infantil e para recuperação de pacientes em estado grave. Outra empresa cearense, a Polymar Ciência e Nutrição S/A, foi a vencedora do Prêmio Iberoeka 2006 de Inovação Tecnológica, com o projeto "Uso do óleo extraído da espécie vegetal palo santo (Bulnesia samientoi) para produção de guaiol e guaizulenos".

O sucesso do Parque Tecnológico de Campina Grande (PB), instalado na década de oitenta juntamente com o de Campinas (SP), colocou a cidade entre as 14 tech cities do mundo, conforme pesquisa da revista Newsweek. O campineiro, que já se orgulha de fazer o melhor forró do mundo, também diz que a cidade é maior centro de software do Brasil, tendo empresas exportando produtos premiados em vários países.

Referência em TI

A pouco mais de 150 km de distância, na capital pernambucana, outra iniciativa exitosa é o C.E.S.A.R (Centro de Estudos e Sistemas Avançados do Recife) - referência nacional em termos de tecnologia de informação. Ele funciona no Bairro do Recife, berço da cidade, dentro do Porto Digital, nascido da cooperação universidade/empresa privada/ setor público para estimular o empreendedorismo, a inovação e os negócios no âmbito da tecnologia de informação e comunicação (TIC).

Na visão dos especialistas, trata-se de empreendimento de classe mundial integrado por "cinco cês": conhecimento, competência, conexões, capital e confiança. Toda a estrutura do porto é beneficiada por cabos de fibra ótica e conectada a infovia de grande capacidade, abrigando empresas de revenda, manutenção e distribuição de hardware e software, desenvolvimento de sistemas, consultorias, provedoras de internet e capacitação de recursos humanos.

Em Fortaleza, outro ponto de concentração de serviços de "tic" no Nordeste, atuam empreendimentos de maior porte, especialmente de software, que exportam cerca de um terço da produção. Uma das empresas exportadoras de software do Ceará, num time que já conta com 14 integrantes, faturou cerca de US$ 2 milhões com a finalização do sistema de bilhetagem eletrônica no transporte coletivo de Honolulu, Havaí. Detentora de certificado ISO 9002 validado para Europa e EUA, a Fujitec acompanha agora a parte operacional do sistema antes inexistente na ilha, informa seu diretor Adalberto de Paula Pessoa. O sistema também está em uso no Brasil, onde começou a ser implementado, bem assim em alguns países da África, América Latina e Denver, Colorado (EUA).

Segundo Jorge Cisne, presidente do Sindicato da Informática do Ceará, algumas empresas cearenses já contam com pontos na Europa (Portugal) e Estados Unidos. "Isso mostra que temos produtos para fazer bonito lá fora", sustenta.

Em Salvador, o cluster tecnológico abrange dezenas de empresas e privilegia softwares para automação, de emprego industrial, orientando-se de forma prioritária para a iniciativa privada.

Para o economista Roberto Cavalcanti, são muito promissoras as perspectivas de desenvolvimento das "tics" no Nordeste. "Há nelas dinamismo empresarial, competência, capacidade de inovação, crescente credibilidade, mas carecem de maior visibilidade, formas mais eficientes de capitalização, mais articulação empresarial e melhor integração com universidades e centros de pesquisas", diz ele.

Além da área de tecnologias de informação e comunicação, o Nordeste também avançou nos últimos anos em pesquisas inovadoras voltadas para a biotecnologia aplicada ao semi-árido e à agricultura irrigada, energia renovável, fitoterápicos.

O grupo Karsten, por exemplo, com atuação em mais de 40 países, aproveitou a tecnologia made in Nordeste para lançar no mercado mundial a primeira toalha felpuda de banho feita com algodão geneticamente colorido, variedade desenvolvida pela Embrapa de Campina Grande.

Em Fortaleza, com o advento do programa nacional do biodiesel, o cearense não cansa de lembrar que o pai e a mãe da tecnologia do produto é um cabeça chata desprendido, doutor Expedito Parente, que a desenvolveu há mais de vinte anos e a doou para o mundo.

São muitas as iniciativas que mostram o Nordeste na trilha do novo. Obviamente, a região não vai rivalizar em tecnologia de ponta com o resto do mundo, mas, com certeza, está se conscientizando de que para entrar no jogo da globalização precisa ter expertise naquilo em que é vocacionado. Por exemplo, para competir precisa ter tecnologia sofisticada em matéria de mamona para biodiesel – como o Brasil tem na cana de açúcar -, a mais avançada tecnologia de piscicultura ou de produção de mel. Até porque, como dizia o ex-governador cearense Ciro Gomes, falando do semi-árido, é muito difícil evoluir "produzindo milho e feijão espiando para o céu, pedindo para São José mandar chuva e se mandar, matando gafanhoto com tamanco".

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