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NORDESTE: EM BUSCA DE NOVOS AVANÇOS E FERRAMENTAS PARA O DESENVOLVIMENTO

Com o fim da Sudene no governo FHC, o crescimento do Nordeste ficou cingido ao uso do crédito como ferramenta principal e à promoção de investimentos na infraestrutura econômica, tendo como esteio, em ambos os casos, o BNB, principal agente financeiro regional

AGÊNCIA PRODETEC ππ Fortaleza [Jul. 2010]

As comemorações dos 58º aniversário de criação do BNB, em Fortaleza, foram marcadas pela discussão em torno dos obstáculos que dificultam a maior integração do Nordeste à dinâmica desenvolvimentista do país e a redução da distância que separa a região do Brasil abastado. Para chegar lá, há muitos desafios pela frente, dizem os especialistas reunidos na capital cearense, dias 19 e 20 de julho, no XVI Fórum BNB de Desenvolvimento e XV Encontro Regional de Economia, realizado em parceria com a Associação Nacional de Centros de Pós-Graduação em Economia (ANPEC).

De saída, algumas constatações entre os participantes. Primeiro: o quadro regional mudou e apresenta boas perspectivas, embora estruturalmente isso seja quase imperceptível e ainda seja abismal o fosso entre os vários brasis. Segundo: o motor das mudanças é impulsionado pelos programas de transferências de renda, pelo aumento real do salário mínimo e também pela política de investimentos/compras de estatais como a Petrobras. Terceiro: o Nordeste é mais um desafio brasileiro do que propriamente regional. Quarto: o federalismo brasileiro continua capenga, exigindo correção de rumo. Quinto: o desenvolvimento do Nordeste requer ruptura estrutural, começando por uma revolução do setor educacional e do sistema produtivo, aí incluídas melhorias na integração regional com a dinâmica econômica do resto do Brasil e da América do Sul.

Alguns desses pontos, já mobilizam lideranças da região em busca de novas ferramentas para apressar o processo de desenvolvimento regional.

Efervescência econômica

A economia nordestina avançou nos últimos anos em patamares acima do Brasil como um todo e apresenta boas perspectivas. "Estamos em efervescência, com canteiros de obras em vários estados", afirma o presidente do BNB, Roberto Smith, para quem a repercussão dos investimentos já chega até mesmo às áreas mais longínquas.

O novo ciclo de crescimento impõe à região desafios prementes como o financiamento de longo prazo, a consolidação de políticas específicas para as áreas pobres, a inclusão da questão regional nos objetivos do Fundo Social criado com a exploração do pré-sal e destinação melhor das riquezas naturais.

No caso do suprimento de crédito, o professor Smith, reconhece que a demanda no Nordeste suplantou a capacidade de atendimento do BNB.

"O panorama encontra-se completamente diferente de 2003, ao assumirmos, quando éramos cobrados pela falta de aplicação de recursos do FNE", esclarece ele.

Hoje, o FNE, é pequeno ante as necessidades atuais, levando o BNB a procurar novos fundings e a intensificar a captação em outras fontes. Inclusive com apoio do presidente Lula que, em sua última visita a Fortaleza, autorizou aporte de R$ 1 bilhão para o Banco se capitalizar mais e fazer face à demanda insatisfeita. Na posição atual, o FNE prevê contratações da ordem de R$ 10 bilhões, mas já o Banco tem cerca de R$ 30 bilhões em carteira.

Desafios e projetos estratégicos

Embora ressalte a relevância do crédito para o funcionamento do sistema econômico, a economista e socióloga Tânia Bacelar alinha um duplo desafio para consolidar nos próximos anos o crescimento do Nordeste: fazer a revolução na educação e cuidar do adensamento da infraestrutura econômica, tal como se fez no século passado no Sul e Sudeste, para integrar a região à dinâmica nacional e da América do Sul.

São objetivos que podem ser alcançados a partir de políticas nacionais com claros impactos regionais, a exemplo do que ocorreu nos últimos anos, quando decisões adequadas, em âmbito nacional, repercutiram muito mais do que políticas regionais strito sensu, que, aliás, avançaram muito pouco.

"No que o Brasil mudou para melhor, foi melhor também para o Nordeste", explica Tânia, para exemplificar que o desenvolvimento regional é antes de tudo um desafio brasileiro e deriva de decisões adequadas em âmbito da União. Basta lembrar a repercussão de decisões como os programas de transferências de renda, o aumento real do salário mínimo e a política de investimentos e compras da Petrobras, ainda que não tenham afetado a economia regional em termos estruturais.

Agora, é preciso a região se mobilizar, primeiro, exigindo o viés regional nas iniciativas da União e participando do que vai ser importante para o futuro do Brasil; segundo, evitando o isolamento em termos de infraestrutura e integração aos centros dinâmicos do país; terceiro, olhando com ousadia o novo perfil da indústria brasileira para disputar a locação de investimentos (petróleo e gás, alimentos, fármacos, informática, e energia renovável, entre outras atividades).

"Sem mobilização, o Nordeste perde esse trem e tudo vai se concentrar, de novo, nas regiões abaixo de Belo Horizonte" adverte Tânia Bacelar.

Revolução e não remendos

Em pleno século XXI, o Brasil tem 10% de analfabetos (33% no Nordeste rural) e apenas um em cada dez jovens na universidade (7 em cada 100 no Nordeste). Mesmo reconhecendo os avanços, ela considera o quadro vergonhoso e prega uma revolução de fato no setor e não ampliações ou remendos. O Brasil -- ensina a mestra da UFPE -- poderia repetir na educação o que fez no segmento de exploração do petróleo em que se tornou referência em menos de 20 anos.

No caso da infraestrutura, há necessidade de integrar o Nordeste ao dinamismo econômico do resto do País. Uma das recomendações é ligar a ferrovia Transnordestina à Norte-Sul e com o projeto de integração física do Brasil com a América do Sul (IIRSA). No primeiro caso, seria necessário construir um trecho entre o terminal da Transnordestina, em Eliseu Martins (PI), até a ferrovia Norte-Sul, interligando os portos nordestinos ao Centro-Oeste. No segundo, o projeto IIRSA, que prevê investimentos de grande monta na integração físico-territorial da America do Sul, ignora o Nordeste completamente.

Outros desafios para a região relacionados pelos pesquisadores, durante as discussões do Fórum, dizem respeito ao fortalecimento da economia local (via APLs, difusão de tecnologias e outros instrumentos); da agricultura familiar, hoje a maior fornecedora de alimentos no país; bem assim das cidades de porte médio como barreiras para o êxodo rural e a deterioração dos grandes centros urbanos.

Indicadores impressionam

Os indicadores positivos da economia nordestina chamam a atenção de empresários e pesquisadores, atraindo pequenos investidores e grandes grupos nacionais e estrangeiros para a região. O consumo das famílias disparou, o crédito se expandiu 63% em 24 meses, elevando sua participação no PIB; diminuíram os níveis de desemprego e os investimentos públicos e privados não param de ser anunciados.

Nas cidades subiu a taxa de emprego formal enquanto no campo a agricultura empresarial e o produtor familiar avançam para outros patamares.

Considerando apenas o FNE, o BNB projeta aplicar R$ 40 bilhões a mais nos próximos quatro anos, os investimentos com a Copa vislumbram 50 mil novos empregos, quase tanto quanto as três refinarias previstas para Ceará, Pernambuco e Maranhão.

Em 2009, os empréstimos do BNB somaram R$ 20,8 bilhões. De 2003 a 2010, foram contratadas mais de três milhões de operações com agricultores familiares (Pronaf) enquanto no Crediamigo foram investidos R$ 7 bilhões, beneficiando 1,3 milhão de microempreendedores, desde 1998.

Hoje, o BNB é o oitavo maior banco do país em volume de empréstimos e o segundo na área rural, além de responder por dois terços de todo o crédito de longo prazo e 33,4% de todo o crédito no Nordeste.

Enfim, um quadro muito favorável. Mas, como dizia o sertanejo numa entrevista com o pessoal do BNB sobre a situação atual: "se melhorar, vai ficar muito melhor"...

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