Anuncie Aqui

ELEIÇÃO PRESIDENCIAL: NORDESTE E PRIORIDADES RETÓRICAS

Os candidatos a presidente intensificaram suas incursões pelo Nordeste nos últimos dias em busca do voto local. O candidato Aécio Neves garante que vai reduzir as desigualdades no país a partir de um aumento maior do investimento na região relativamente às áreas mais ricas.

Em discurso na cidade de Itabuna (BA) ele prometeu, ainda, elevar as inversões na educação de modo que "em oito anos, o Nordeste tenha o mesmo nível de educação das regiões mais ricas do Brasil" e fortalecer a infraestrutura e a política de promoção do turismo dentro e fora do Brasil. As candidatas Dilma Rousseff e Marina Silva, igualmente, renovaram seus rosários de promessas em todos os estados que visitaram. Praticamente com a mesma métrica discursiva.

Ribamar Mesquita (*) para a Agência Prodetec [20 Set.2014]

Salvador - Presidentes, candidatos, governadores, líderes empresariais, congressistas e muitos representantes de segmentos da sociedade brasileira são unânimes quanto à necessidade de uma política prioritária para regiões pobres como o Nordeste. Anos e eleições a fio a tese é referenciada nos mais variados locais e fóruns. Entretanto, essa prioridade nunca passa de exercício retórico. O Governo Lula não fez diferente da maioria de seus antecessores, nascidos ou não na região.

Agora mesmo, dona Dilma Rousseff e seus concorrentes Marina Silva e Aécio Neves continuam a exercitar essa retórica. A exemplo de Lula da Silva, desde o primeiro mandato, todos colocam como dádiva para o nordestino a construção da ferrovia Transnordestina e a interligação da bacia do Rio São Francisco. Como política de desenvolvimento isso representa retorno à fase das obras públicas predominante no início do século XX quando foi criada a Inspetoria Federal de Obras contra as Secas, mais tarde transformada em DNOCS, hoje um cadáver insepulto, tal e qual a 'nova Sudene' recriada em 2007, mas até agora atuando à moda zumbi, sem a menor importância no cotexto regional.

A melhoria da infraestrutura hídrica é muito importante e a ferrovia também. Mas, parece exagero, como afirmam os presidenciáveis, colocá-las como a espinha dorsal – como dizia Lula -- que permitirá ao Nordeste brasileiro "deixar de ser a região pobre do país e passe a ser uma região rica e desenvolvida, capaz de gerar os empregos e as oportunidades que a sociedade brasileira precisa". Muito mais relevante, neste particular, é a concretização de empreendimentos como as refinarias de Pernambuco, Ceará e Maranhão, e as siderúrgicas desses dois últimos estados. E, sobretudo, o aparelhamento institucional e a efetiva execução de políticas públicas voltadas para a região.

Sem planejamento estratégico

A uma semana da eleição de um novo mandato presidencial, o nordestino olha pelo retrovisor e ver que praticamente ficou no mesmo lugar. O pouco da mudança na paisagem é muito mais esforço da iniciativa privada e de alguns governos estaduais do que da prioridade federal. Muito mais conjuntural do que estrutural.

Na verdade, se já ficou pronto e acabado, o planejamento estratégico do Governo para a região ainda hoje se encontra escondido nos escaninhos de Brasília. Na sua versão preliminar, o documento chamado Plano Estratégico de Desenvolvimento Sustentável do Nordeste (PDNE), de iniciativa do então ministro Ciro Gomes, tinha pretensões modestas: aumentar em dois pontos percentuais (de 13,5% para 15,6%), até 2025, a participação da Região no PIB nacional com a melhoria de indicadores como renda per capita, nível de escolaridade média de cinco para dez anos, aumento da formação bruta de capital em mais 25%, dentre outros itens. Ou seja, avançando um mísero ponto a cada década seriam necessários quase 150 anos para o Nordeste ter uma participação no PIB nacional equivalente ao seu peso populacional, hoje em torno de 28%.

Os investimentos (públicos e privados) nas duas últimas décadas no Nordeste caíram de forma expressiva. Em 2005, segundo o IPEA, foi de apenas R$ 1,8 bilhão ou 17% do total nacional. As exportações nordestinas também perderam posição relativa no conjunto nacional. Os incentivos fiscais e financeiros no Brasil continuaram sendo apropriados pelas regiões ricas. É fato que a renda do nordestino melhorou. Segundo o pesquisador Marcelo Néri, muita gente deixou a linha de pobreza nos últimos anos graças aos programas assistenciais e valorização do salário mínimo. Contudo, a diferença ainda é muito grande comparada à renda das áreas mais ricas.

Os especialistas concordam com a relevância dessas políticas, mas advertem para a necessidade de adoção de outros tipos de intervenção para garantir à região resultados estruturais. É o que defende, por exemplo, o economista Jeffrey Sachs, representante da ONU para as estratégias de luta contra a pobreza.

"O Brasil precisa estabelecer planos regionais para garantir melhor infraestrutura, para lidar com o problema de cada local. Minha tese é simples: a prioridade deve ser o Nordeste, com um amplo plano de irrigação e melhoria das condições das cidades", diz Sachs, esclarecendo que o plano deve baseado em dar produtividade aos estados do Nordeste e fortalecer a base industrial.

=.=.=.=.=.

Voltar

 

A agência Prodetec é uma ferramenta voltada para divulgar artigos, estudos e pesquisas
sobre assuntos relacionados com o Nordeste

Imagine Comunicação Digital

Todos os direitos reservados. Reprodução do material permitida mediante citação da fonte.