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NORDESTE: ELEIÇÃO, PRECONCEITO, IGNORÂNCIA E DESINFORMAÇÃO

O Brasil continua em dívida com os nordestinos. O que o Nordeste recebeu até aqui é quase nada quando confrontado com a dimensão de seus problemas. A região registrou um crescimento maior que o Brasil como um todo nos últimos vinte anos, mas permanece num patamar muito distante, por exemplo, da compatibilidade de seu peso demográfico no conjunto do país.

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POR RIBAMAR MESQUITA PARA A AGÊNCIA PRODETEC - 11. OUT. 2014

Fortaleza – Após proclamado o resultado do primeiro turno e a vitória esmagadora da candidata Dilma Rousseff no Nordeste, observou-se na web manifestações de desinformação, ignorância e preconceito contra os nativos da região por parte de meia dúzia de beócitos. O ex-presidente Lula saiu em defesa do Nordeste citando realizações como a criação de universidades e de campus avançados das instituições federais de ensino, o programa Sem Fronteiras e a refinaria de Pernambuco. O certo mesmo, contudo, é que em 20 anos de administração, tucanos e petistas fizeram menos pelo Nordeste do que Getúlio Vargas e JK, confirmando a forma ciclotímica com que o desenvolvimento regional é tratado.

Essa descontinuidade é mais verdadeira quando se observa a história do Nordeste. Em termos de retórica dos governantes, a região sempre foi e será prioridade. Encabeça as preocupações de todos, ontem e hoje. Remota está a promessa do imperador de vender até a coroa em favor do Nordeste; um pouco menos distante a de Figueiredo de "virar o mapa do Brasil de cabeça para baixo" ou a de próceres da Nova República quando o Nordeste era tido como prioridade absoluta. Retórica de Sarney que se perdeu rapidamente fazendo das boas intenções em relação à região apenas isso: boas intenções. Um milhão de hectares irrigados, convivência com a seca, fortalecimento da Sudene e do BNB, programa de apoio aos pequenos agricultores, tudo farofa, tudo intenção que se distanciou dos fins em função dos meios mobilizados.

Mais próximo ainda estão Fernando Henrique Cardoso e Lula da Silva. Mais frustrações e falsas prioridades. De seus 16 anos sobraram o esvaziamento do planejamento e órgãos regionais, o esfacelamento da infraestrutura e o anúncio, por Lula, quase no final do segundo tempo, de alguns gols traduzidos pela criação de sete universidades, a ampliação de campus universitários, e pelos projetos de transposição de bacias, da construção da ferrovia e da refinaria de Pernambuco – estes projetos semiestatais, com participação da CSN e Petrobras, ainda em andamento.

Agora mesmo, o candidato tucano Aécio Neves avisa que a região será prioridade absoluta e que ele será lembrado, caso eleito, "como o melhor presidente do Nordeste brasileiro''. Dona Dilma, por sua vez, ao lado das promessas, costuma afirmar que o Nordeste teve um desempenho espetacular nos últimos anos, um crescimento chinês, no dizer dela. Mas não é bem assim a coisa. Esse crescimento de um a dois pontos acima do nacional não é suficientemente grande para nos aproximar das áreas mais ricas.

Nordeste credor

O Nordeste continua como o maior credor da divida social brasileira, aquela referente à pobreza, ao desemprego, do analfabetismo, à má distribuição de renda, do desemprego e da mortalidade infantil. Um quadro cuja reversão é constantemente motivo de promessas. Especialmente em épocas de eleição como agora.

Os nordestinos já são 56 milhões de almas em nove estados e quase um quinto do território brasileiro. Sua renda per capita é menos da metade da nacional – precisamente 48% ante 47% em 1960. A participação no PIB decresceu de 14,7%, em 1960, para 13,5%, atualmente; a representatividade da indústria não chega a 10% da nacional - permanecendo praticamente no mesmo patamar de 20 anos atrás, mais ou menos a mesma participação da agricultura. A região tem mais da metade dos trabalhadores que ganham menos de 50% do salário mínimo, quase 50% dos trabalhadores com renda abaixo de um salário mínimo, a maior parte dos analfabetos com idade acima de 10 anos e de famílias sem acesso á água e saneamento.

A retórica dos candidatos costuma cessar antes da apuração dos votos. Fechadas as urnas e proclamados os vitoriosos, quase tudo é esquecido, como a confirmar o sábio Ariano Suassuna:

...é muito difícil você vencer a injustiça secular, que dilacera o Brasil em dois países distintos: o país dos privilegiados e o país dos despossuídos.

Mais difícil, ainda, se considerada a desmobilização das lideranças regionais em torno de um projeto estratégico de consenso transformado em embate político, intransigentemente. Sem isso, o Nordeste continuará se esforçando e ganhando alguma coisa, mas não o suficiente para vencer o fosso que ameaça se agravar – basta pararmos de crescer mais que o resto -, aumentando a distância que separa a região das áreas mais ricas.

Muita força e pouco resultado

O Nordeste tem nove governadores, 27 senadores, 151 deputados federais, a direção do Congresso Nacional, a relatoria geral do Orçamento 2014, a liderança do Governo, ministérios e estatais importantes. Muita força para tão pouco resultado prático. Pouca disposição para a convergência em torno do equilíbrio federativo. O equilíbrio que somente será possível quando o País se conscientizar que a desigualdade se resolve é tratando desiguais de forma desigual e não como hoje, aqui, onde desiguais são tratados igualmente. Cobrar permanentemente o fim do desequilíbrio talvez fosse a saída, se a região atuasse unida e politicamente, em vez de pontual e individualmente.

Enquanto isso, o nordestino procura transformar desvantagem em oportunidades, esquecendo a desigualdade em que convive. Com um imenso potencial a explorar, a região busca com esforços próprios dar a volta por cima.

Hoje, o Nordeste produz até artigos que frequentam as mesas mais ricas do primeiro mundo, mas aguarda a concretização de projetos estruturantes que possam alavancar sua economia, empregando grandes contingentes de mão de obra. E procura entrar na rota do novo com iniciativas e projetos que, ampliados e multiplicados, podem, senão erradicar, pelo menos minimizar suas mazelas.

O estereótipo da região de miséria e seca sofre mutações. Lentas e localizadas, é certo. Mas, decididamente, relevantes para mudar preconceitos arraigados em certos segmentos do país que insistem no preconceito e na desinformação – vide as manifestações recentes pós-apuração do primeiro turno.

Exemplos do novo

Esse novo Nordeste já é perceptível, embora ainda persistam contrastes e má distribuição de renda.

Os exemplos são visíveis. O turismo internacional é uma força na Bahia, no Rio Grande do Norte e no Ceará. No porto de Itaqui, no Maranhão, o minério de Carajás é exportado para o mundo. Os polos petroquímico de Camaçari (BA) e têxtil/calçadista em vários estados são uma evidência. A produção agropecuária se consolida no oeste baiano, sul do Maranhão, sudoeste do Piauí e nos vales do São Francisco (BA/PE), do Açu (RN) e do Baixo Jaguaribe (CE). Tudo isso, sem falar nos megaprojetos futuros – uma refinaria em Suape (PE), uma siderúrgica em Pecém (CE) e as ferrovias Norte-Sul e Transnordestina, beneficiando vários Estados.

Resultado: a região se expande a taxas um pouco maiores que as do país, embora o ideal é que fossem bem mais vigorosas e, com isso, estreitar as diferenças em termos de renda per capita e possibilitar que a participação regional no PIB nacional se aproxime do seu peso demográfico. Ou seja, compatibilizar os investimentos públicos no Nordeste com sua representatividade populacional, em volta de 28% dos habitantes do Brasil.

Infelizmente, não se pode dizer que os efeitos mais cruéis da estiagem, velha inimiga do progresso nordestino, estejam no fim. O projeto de integração de bacias ainda não foi concretizado. Tampouco a revitalização das bacias do São Francisco e do Parnaíba - ambas ameaçadas de degradação - nas dimensões desejáveis e de uma forma permanente ao longo dos próximos vinte anos.

Temos, na verdade, vários nordestes e quase todos carentes de integração ao processo de desenvolvimento nacional. Uma integração que não seja excludente e limitada a áreas de expansão, com estruturas modernas e dinâmicas, mas que contemple as zonas, as áreas e os segmentos tradicionais, sob pena de se replicar intrarregionalmente as mesmas desigualdades observadas no comparativo Nordeste x Sudeste, atualmente.

Há todo um conjunto de possibilidades à frente para o Nordeste. Explorando setores em que se mostram capaz de competir no mercado internacional. Aprimorando técnicas e processos para entrar no jogo global. Chamando parcerias internas e exógenas. Fortalecendo arranjos em que possa competir com vantagens. Mostrando sua cultura e criatividade para o mundo.

Enfim, acabando com a imagem de coitadinho da Nação, com o preconceito, o xenofobismo, a ignorância e a desinformação que boa parte dos brasileiros ainda tem em relação ao nordestino.
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