Anuncie Aqui

CULTURA ALGODOEIRA REGIONAL: UMA GRANDE TRANSFORMAÇÃO EM 10 ANOS

Por Ribamar Mesquita, Fortaleza [FEV. 2011]

cultura-algodoeira-noticia
( foto: Harald Brunckhorst)

O Nordeste apresentou uma recuperação extraordinária no cultivo de algodão no espaço de dez anos. A cultura migrou do semiárido para os cerrados, atraindo produtores do Sul e Sudeste que praticam agricultura em bases empresariais. O resultado foi um aumento de 50% na área cultivada e de quase um mil por cento na produção entre 1996 e 2006.

Depois de praticamente ser dizimada pelo bicudo, a abertura do mercado e a falta de assistência técnica, a cultura do algodão voltou a brilhar a partir do início do século atual, colocando o Brasil, novamente, entre os maiores produtores mundiais. Levantamento realizado pelo BNB-Etene entre os censos agropecuários de 1995/96 e 2006 mostra que a cotonicultura brasileira, e principalmente a nordestina, viveu profundas transformações no período.

Além de quase triplicar sua produção no intervalo entre os censos, de 814 mil para 2.350 mil toneladas, o segmento viu surgir uma nova fronteira agrícola para exploração do produto -- o cerrado -- e tecnologias inovadoras como o cultivo de algodão colorido e orgânico destinadas a viabilizar economicamente o cultivo em áreas como o semiárido, com a geração de mais emprego e renda.

Conforme o trabalho do Etene, após enfrentar os percalços provocados pela paga do bicudo, o Nordeste voltou ao mapa da grande produção algodoeira na safra 2000/01. Contribuiu, decisivamente, para tanto, a disponibilidade de terras aptas nos cerrados da Bahia, Piauí e Maranhão, onde a atividade é praticada em bases empresariais, coexistindo com o modelo que voltou a ser praticado no semiárido, em que prevalece o minifúndio e a produção familiar. Em 2006, a produção regional atingiu 777,8 mil toneladas ante 76,2 mil t, em 1996.

Relevância social

A cadeia produtiva do algodão tem grande importância social e econômica no Brasil, especialmente pelo número de empregos que gera direta e indiretamente. Dados da ABRAPA mostram que em 2011 os setores que abrangem essa cadeia (insumos, produção agrícola, algodoeiras, fiação, tecelagem, malharia e as usinas de óleo e biodiesel) foi responsável por um PIB de US$ 19 bilhões, massa salarial de US$ 787 milhões e movimentação financeira total de US$ 37 bilhões, empregando cerca de 80 mil pessoas, exclusive o segmento têxtil.

De acordo com o professor Marcos Fava Neves, da FEA/USP, de Ribeirão Preto, a cadeia caminha rapidamente em processos de qualidade de produtos, na certificação socioambiental dos seus produtores e na conquista de mercados internacionais, sendo um dos setores mais promissores do agronegócio brasileiro. Para ele, a China, que hoje consome 35% da safra mundial de algodão, pode representar uma grande oportunidade para o Brasil, assim como outros mercados emergentes. Do total importado pela China somente 3% procedem do Brasil.

Nordeste

No Nordeste, a área cultivada com o produto passou de 162,4 mil hectares, em 1996, para 237,7 mil, em 2006, mas a participação no total nacional aumentou apenas quatro pontos percentuais, 26,2% para 30,2%. O acréscimo de área ficou restrito aos estados da Bahia e Maranhão, que respondem por 76% do total.

No intervalo entre os dois censos, o Maranhão elevou de 0,6% para 13,5% sua participação na área cultivada com algodão no Nordeste. Na Bahia, o avanço foi de 62,4% para 79,3%. Todos os demais estados onde o algodão era tradicionalmente cultivado tiveram redução do percentual regional da área colhida, com destaques para Rio Grande do Norte (queda relativa de 10,3% para 1,1%), Paraíba (8,8% para 1,8%), Piauí (8,7% para 2,2%) e Ceará (5,1% para 1%).

Para os pesquisadores Jackson Coêlho e Fátima Vidal, pesquisadores do ETENE, esses dados evidenciam o declínio do cultivo do algodão no semiárido e o avanço da cultura nas regiões de cerrado do Maranhão e Bahia.

Produção expressiva

Para um avanço de apenas 50% na área cultivada, o Nordeste apresentou um desempenho extraordinário na produção algodoeira: 916,5% entre 1996 e 2006, evidenciando um grande incremento de produtividade por conta do cultivo nos cerrados, para onde migraram produtores do Sul e Sudeste do País que praticam uma agricultura em bases empresariais.

No Piauí, o crescimento alcançou 241,1%, para 18.530 t, em 2006. No Maranhão, a produção passou de 1,8 mil toneladas para 98 mil toneladas e na Bahia, evoluiu de 43,7 mil para 649,2 mil toneladas.

Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba e Pernambuco perderam competitividade, mas buscam atender a nichos de mercado, produzindo, por exemplo, algodão colorido e algodão orgânico.

Produtividade nordestina ultrapassa média mundial

Na atual safra, os cerrados do Piauí e da Bahia deverão obter os maiores incrementos de produção e níveis de produtividade acima da média nacional e do Centro-Oeste, observando-se, no caso do Oeste da Bahia, rendimento recorde mundial para algodão em sequeiro.

De acordo com penúltimo levantamento da Conab o país deverá colher cerca de 5,2 milhões de toneladas de algodão em caroço na safra 2011/2012, 1,7% abaixo da anterior. No Nordeste, a expectativa segue o panorama nacional, com incremento de 3,3% na área cultivada e de 0,9% na produção que pode alcançar 1,8 milhão de toneladas, com destaques para os estados do Piauí e Bahia, onde o cultivo é concentrado nas áreas de cerrados. Em âmbito nacional, a estimativa de área plantada é de 1.405,3 mil hectares (+0,4%) ante 465,3 mil hectares no Nordeste.

Tanto a pesquisa de dezembro de 2011 quanto a de janeiro último da Conab mostram também que a produtividade do algodão em caroço no Nordeste deverá se situar acima da média nacional e do Centro-Oeste na safra 2011/12, assinalando 3.808 quilos por hectare, com destaque para a Bahia, onde é estimada em 3.900 quilos.

Esse rendimento da cultura em território baiano, que é um pouco maior na região dos cerrados, a oeste de Salvador, coloca o Estado como campeão mundial de produtividade. Na safra 2010/11 o cerrado da Bahia cravou produtividade de 270 arrobas por hectare, em regime de sequeiro, a mesma obtida pela Austrália em cultivo 100% irrigado, e acima da verificada na China (226,1@por hectare). Segundo informa a Associação dos Agricultores e Irrigantes da Bahia (AIBA), em 2012, mesmo com uma ligeira queda nesse patamar (265@/ha), a Bahia continuaria na liderança mundial. O Conselho Técnico da AIBA não esconde o entusiasmo, informando que em algumas áreas do cerrado, a exemplo do município de São Desidério, maior produtor nacional de algodão e segundo maior PIB agropecuário do Brasil, a média geral de produtividade chegou a 285@/ha.

A previsão é que, isoladamente, essa região colha cerca 1.542 mil toneladas de algodão em caroço na atual safra, 3% superior à anterior, uma expansão modesta diante da registrada na última safra, em volta de 50%, embalada pela elevação dos preços durante meses. O VBP (valor bruto de produção) estimado, da ordem de R$ 2.450 milhões, é o segundo maior entre as culturas da região, perdendo apenas para a soja (R$ 2.742 bilhões), que possui o dobro de área plantada.

Para os técnicos da entidade, contribui para isso uma serie de fatores relevantes nos cerrados baianos: clima e solo em condições favoráveis, adoção de modernas tecnologias, informação técnica e mercadológica, recursos hídricos e profissionalismo entre os produtores.

Meio Norte

Entre maranhenses e piauienses, o entusiasmo com o algodão é até maior que na Bahia. No intervalo entre os dois últimos censos agrícolas do IBGE (1996 e 2006), o Maranhão elevou de 0,6% para 13,5% sua participação na área cultivada com algodão no Nordeste ante 62,4% para 79,3%, na Bahia.

Para um avanço de apenas 50% na área cultivada, o Nordeste apresentou um desempenho extraordinário na produção algodoeira: 916,5% entre 1996 e 2006, evidenciando um grande incremento de produtividade por conta do cultivo nos cerrados, para onde migraram produtores do Sul e Sudeste do País que praticam uma agricultura em bases empresariais.

No Piauí, o crescimento alcançou 241,1%, para 18.530 t, em 2006. No Maranhão, a produção passou de 1,8 mil toneladas para 98 mil toneladas e na Bahia, evoluiu de 43,7 mil para 649,2 mil toneladas. Mais recentemente, esse desempenho avançou bastante no chamado Meio Norte até por causa da troca da soja pelo algodão em alguns centros produtores.

No cerrado maranhense a área plantada cresceu para 18,1 mil hectares na safra 2010/11 com produção de 71,1 mil toneladas, devendo cair um pouco na safra atual para cerca de 70 mil toneladas. No Piauí, por outro lado, nas últimas três safras a área plantada dobrou, de 11,2 mil hectares (2008/09) para 22,1 mil hectares (2011/12). No mesmo intervalo, a produção saltou de 34,3 mil toneladas para 76,2 mil toneladas.

Um projeto executado pela Embrapa Algodão, de Campina Grande (PB), com o apoio do BNB-ETENE-Fundeci, teve muito a ver com essa recuperação da cotonicultura regional.

Agregando valor

O norte da pesquisa foi buscar a agregação de valor à fibra do algodão e com isso revitalizar a atividade. Desse esforço do BNB e dos cientistas da Embrapa surgiram as novas opções para o produtor. Hoje, o algodão de fibra colorida (marrom, vermelho, verde e bege) faz sucesso em todo o mundo.

Com os resultados das pesquisas foram alcançados dois pontos importantes: agregação de valor ao algodão da fibra natural e benefícios ao meio ambiente, desde que o novo produto eliminou o processo de coloração química do fio que tem impacto ambiental.

Controle de pragas

Além do algodão colorido, no momento a Embrapa de Campina Grande, com apoio do FUNDECI faz estudos visando ao isolamento e introdução de um gene inseticida em planta de algodão para controle de insetos.

A obtenção de um cultivar modificado tem impacto socioeconômico imediato em todos os segmentos da cadeia produtiva, sem contar os benefícios para o meio ambiente, dada a possibilidade de redução do uso de agrotóxicos, e para a balança comercial, pela menor importação de defensivos agrícolas.

Sobre o algodão

  • US$ 2 bilhões por ano em defensivos e de fertilizantes.
  • VBP de US$ 6,5 bilhões na safra 2010/11, valor concentrado principalmente no Centro-Oeste e do Nordeste.
  • US$ 7,8 bilhões em tributos ao governo (Markestrat/USP).
  • Exportações de cerca de US$ 1 bilhão em algodão em pluma e US$ 250 milhões em tecidos planos de algodão, malhas, fios e línter.
  • US$ 3,2 bilhões de divisas nos últimos 10 anos.

Voltar

 

A agência Prodetec é uma ferramenta voltada para divulgar artigos, estudos e pesquisas
sobre assuntos relacionados com o Nordeste

Imagine Comunicação Digital

Todos os direitos reservados. Reprodução do material permitida mediante citação da fonte.