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PRODUTOR DE LEITE NO BRASIL AUMENTA PRODUÇÃO E REDUZ MARGEM DE LUCRO

Com uma produção esperada de 31,3 bilhões de litros, concentrada especialmente em pequenas propriedades, o Brasil enfrenta ainda algumas dificuldades para tornar mais eficiente a cadeia leiteira. O produtor vive um aparente paradoxo: aumentou sua produção a uma média de 780 milhões de litros/ano nas duas últimas décadas, mas observa o lucro da atividade diminuir.

por Ribamar Mesquita, Fortaleza [OUT. 2011]

O produtor de leite brasileiro aumentou sua produção de forma significativa nos últimos 20 anos, devendo colocar no mercado, este ano, cerca de 31,3 bilhões de litros. Esse desempenho foi conseguido em meio a um cenário de dificuldades que se inicia com os controles de governo sobre o preço do produto, passa pela abertura da economia brasileira e deságua na mudança de hábitos de consumo, mais recentemente.

Esse quadro colaborou para limitar o crescimento e a competitividade do setor, deixar o produtor aparentemente apático em relação a novos investimentos e fazer frente aos altos custos de produção e baixos preços pagos pelo leite.

Um relatório especial do BNB-Etene, já colocado à disposição dos interessados no portal http://d001int05/content/aplicacao/etene/etene/docs/ire_ano5_n6.pdf, aborda as principais disfunções atuais do mercado leiteiro, especialmente quanto à alimentação animal (concentrados), preços pagos aos produtores e à postura governamental em relação à cadeia de lácteos no Brasil.

Melhorar lucro

Conforme os pesquisadores do BNB-Etene, a preocupação permanente do setor, hoje, é reduzir custos para maximizar lucro por meio do uso eficiente dos fatores de produção do próprio sistema, incluindo os genéticos. Em outras palavras, encerrar a fase atual de produzir mais e lucrar menos. como fez uma minoria de produtores que absorveu a ideia de produção econômica e se manteve menos sujeita às oscilações do mercado.

Segundo eles, as discussões e medidas governamentais para a pecuária bovina leiteira no Brasil e em especial no Nordeste devem envolver os pequenos produtores, para que este se insira no mercado formal de lácteos, tenha melhor assistência técnica na produção e comercialização, permitindo melhor estabilidade na oferta e, consequentemente, de renda.

De outro lado, acrescentam, impõe-se uma política comercial voltada para a proteção do produtor leiteiro, possibilitando a ele se firmar em mercados que melhor o remunerem e se defender de acordos como os vigentes que têm implicado prejuízos, porquanto os parceiros exportam seus excedentes e o Brasil importa o que não necessita.

Aumenta a produtividade

Tanto no Nordeste quanto no Brasil como um todo, a pecuária leiteira registrou substancial aumento de produtividade nos últimos anos. Tanto o rebanho bovino quanto o de caprinos experimentaram alta na produção de leite mesmo com redução do número de matrizes ordenhadas, o que se explica por fatores como a melhoria da qualidade genética dos rebanhos leiteiros, manejo alimentar e tratamento sanitário adequados.

Com base nos censos agropecuários de 1995/96 e 2006, é possível observar que no caso da pecuária de leite bovina, o Nordeste melhorou a sua participação em relação ao resto do País em termos de produção total e volume comercializado. Na região, onde o segmento é caracterizado pela presença maciça de pequenos e médios produtores, existem áreas bastante propícias para a exploração da bovinocultura leiteira.

Conforme os censos, a produção nacional de leite cresceu 12,5% entre 1996 e 2006, passando de 17,9 para 20,2 bilhões de litros, embora o rebanho ordenado tenha diminuído 8% no intervalo intercensitário (de 13,7 para 12,6 milhões de cabeças). Em âmbito regional, no mesmo período, o acréscimo na produção alcançou 378 milhões de litros, alta de 16,6%, totalizando 2.652 milhões de litros para um rebanho que caiu de 2.884 mil para 2.411 mil cabeças, o que indica produtividade acima da média brasileira.

O Nordeste aumentou a sua participação em relação ao Brasil também quanto à venda do leite, passando de 9,7% para 11,6%. Dentro da região, os estados da Bahia, Pernambuco e Ceará lideram a pecuária leiteira bovina, com quase dois terços da produção total em 2006.

Essa evolução também é observada no período 1990/98 a 1999/03, segundo atesta trabalho conjunto do BNB e Embrapa divulgado no livro "Sistema Agroindustrial do Leite no Nordeste", de autoria de uma equipe integrada por técnicos das duas instituições. Cinco estados lideraram a produção de leite (Maranhão, Rio Grande do Norte, Piauí, Sergipe e Pernambuco), colocando-se acima da média regional, sendo que Sergipe, Piauí e Paraíba também se destacaram em termos de produtividade.

Situação deficitária

Em 2008, o Nordeste brasileiro era responsável por 12% de todo o leite produzido no país, mas demandava mais do que isso para o seu consumo. A pesquisa de orçamento familiar do IBGE apontava gastos da ordem de R$ 5 bilhões com produtos lácteos, por parte dos nordestinos, alta de 54% em relação a 2003. Desse montante, cerca de 30% correspondem aos dispêndios das famílias com a inclusão do leite na lista de compras. Conquanto tenha deslanchado nos últimos dez anos, a produção ainda apresentaria descompasso em relação ao consumo regional, implicando ociosidade na indústria de lacticínios e maior consumo de leite em pó e longa vida vindo de outras regiões.

Para minimizar a situação, o ministro da Integração Nacional, Fernando Bezerra anunciou em novembro, na cidade de Petrolina, que a produção de leite do Nordeste será ampliada, podendo a região passar a liderar em curto tempo a pecuária leiteira nacional. O plano do ministro é disseminar nos projetos irrigados do semiárido nordestino a utilização da técnica do pasto irrigado, muito difundida em países como Israel.

A estimativa da equipe de Bezerra é operacionalizar 200 mil novos hectares de terras nos perímetros irrigados do Nordeste para viabilizar, além da pecuária leiteira, a produção de frutas e etanol, com investimentos superiores a R$ 10 bilhões, parte oriunda do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) e parte dos empresários via parcerias público-privadas. Nos cálculos dos técnicos do Ministério da Integração isso resultaria na criação de 500 mil empregos diretos e indiretos.

Gargalos no semiárido

A região nordestina, entretanto, enfrenta alguns gargalos na produção leiteira, especialmente no caso dos produtores do semiárido. Uma pesquisa recente divulgada pelo BNB-Etene mostra que a produção de leite com animais mestiço holandês x guzerá se apresentou lucrativa e rentável no semiárido, garantindo ao proprietário renda e a amortização dos investimentos, ainda que a níveis inferiores à remuneração média da poupança. Mas, como no restante do País, os sistemas de produção locais apresentam diversos gargalos de natureza tecnológica e mercadológica, elevados custos de produção e baixos preços pagos ao produtor, assistência técnica deficiente e falhas de controle zootécnico e econômico. Uma das conseqüências diretas disso é a baixa produtividade. Na Bahia, por exemplo, maior produtor regional de leite, ela não chega nem à metade da média nacional de 1.207 litros por vaca/ano, registrada pelo IBGE em 2009. A produtividade baiana, de 555 litros, é a segunda pior do Nordeste.

No Ceará, quadro que pode ser estendido ao semiárido em geral, a produção de leite concentra-se em pequenos produtores (57,7% na faixa de até 50 litros/dia e apenas 21,5% com mais de 100 litros, sendo de 0,4% o universo daquelas acima de 1.000 litros. A maioria é titular de suas terras e tem baixa escolaridade, não tendo passado do ensino fundamental. Entre os que produzem acima de 1.000 litros/dia, 37% realizavam o controle leiteiro; 22,2% usavam a informática e 9% praticavam a correção de solo e a inseminação artificial.

Todavia, o perfil em escala nacional está mudando. O produtor está ficando maior e mais preocupado com a qualidade em função, sobretudo, das exigências dos laticínios. É o que informa a Associação Brasileira dos Produtores de Leite para quem, há 15 anos, quase metade da produção (46%) era garantida por 5,3% das propriedades classificadas de médias e grandes, totalizando 97 mil produtores. Em 2009, eram 142 mil ou 12% das propriedades e respondiam por 81% do leite produzido.

Para o presidente da Associação, o Brasil pode produzir o leite que quiser e com qualidade semelhante aos produtores da União Europeia. Jorge Rubez lembra que a safra brasileira, em torno de 30 bilhões de litros de leite anuais, é toda voltada para o mercado interno, mas não descarta a exportação, no futuro, à medida que o consumo interno for suprido e sejam derrubados os subsídios que sustentam os produtores em muitos países. Ele acredita que vai chegar um momento em que esses países, cuja capacidade produtiva está esgotada, vão retirar o subsídio, abrindo espaço para o Brasil.

Vale salientar a preocupação do Ministério da Agricultura em estabelecer os parâmetros de qualidade para o leite brasileiro, equiparando-os aos vigentes na Europa.

Leite: cenário e números

  • Crescimento da produção 780 milhões de litros/ano (média de 20anos)
  • Crescimento das importações de lácteos
  • Baixos preços do leite e alto custo dos grãos
  • Mercado de insumos extremamente oligopolizado (preços internos acima dos internacionais).
  • Deslocamento da atividade para o Centro-Oeste
  • Avanço do leite longa vida (UHT) na preferência dos consumidores
  • Alta dos preços do milho e da soja
  • Predominância da atividade em pequenas propriedades: 74,65% têm 50 ha e produzem metade de todo o leite do País.
  • Acordo Mercosul prejudicial ao produtor pela prática da triangulação. (importa-se leite subsidiado de países do bloco, burlando a taxação de 30% imposta pelo Brasil.
  • US$ 195 milhões foi o déficit da balança de lácteos, em 2010 (US$ 2,6 bilhões acumulados).
  • De acordo com o Sebrae, os pernambucanos gastam cerca de R$ 25 milhões por mês com queijo. Na Bahia, com população 60% maior, o gasto mensal fica em torno de R$ 16,5 milhões..

Gasto mensal das famílias nordestinas na aquisição de leite de vaca.

Bahia                            R$ 37.293.119,55

Ceará                            R$ 30.398.668,29

Pernambuco                  R$ 15.239.764,39

R.G.do Norte                 R$ 10.565.644,32

Paraíba                         R$   9.435.391,26

Maranhão                      R$   8.871.799,32

Piauí                             R$   6.288.236,84

Sergipe                         R$   4.423.390,82

Alagoas                        R$    4.108.062,00

Fonte: IBGE/Pesquisa do Orçamento Familiar, 2008/2009.

Maiores municípios produtores de leite do Nordeste - 2008 

Itaíba (PE) 75,884.000 mil/litros/ano

Buíque (PE) 62.634,000

Açailândia (MA) 58.880.000

Pedra (PE) 49.275.000

IBGE-PAM.

Projeções sobre o leite

Um estudo do Ministério da Agricultura sobre o agronegócio brasileiro nos próximos anos informa que o leite é um dos produtos que apresenta elevadas possibilidades de crescimento. Conforme o documento, a produção deverá crescer a uma taxa anual de 1,9% nos próximos dez anos, o que corresponde a uma produção de 38,2 bilhões de litros de leite cru no final do período das projeções (2020/21). O consumo deverá crescer a uma taxa praticamente igual a da produção. A taxa de crescimento da produção é superior à observada para o crescimento da população brasileira.

"Segundo técnicos da Embrapa Gado de Leite, para a produção, o número inicial (2010/11) parece um bom número, mas o número final foi considerado baixo. Acreditam que algo em torno de 40.000 a 42.000 seria um número melhor, o que equivale a um crescimento médio em torno de 2,5% ao ano (nos últimos 10 anos crescemos 4,3% ao ano). O setor primário vai passar por importantes transformações nos próximos anos em função do processo

de reorganização e consolidação do segmento de transformação. Mas as estimativas obtidas neste relatório mostram que a produção de leite poderá chegar ao final do período das projeções em 42,8 bilhões de litros em seu limite superior", diz o documento, cuja íntegra pode ser consultada no site do Ministério da Agricultura (Projeções do Agronegócio Brasil 2010/11 a 2020/21).

Leite de cabra

No caso da produção de leite de cabra, a atividade ainda é muito pouca explorada no Nordeste, a despeito de seu grande potencial e a existência de um mercado para produtos lácticos de origem caprina, hoje abastecido por importações de outras regiões.

Detentor de 91% do rebanho de caprinos do país, o produtor nordestino se concentra mais no abate dos animais, mas segundo Nogueira Filho já se vislumbra alguma preocupação também com a produção e aproveitamento do leite. Ele cita o exemplo da Paraíba, Rio Grande do Norte e Bahia, responsáveis por 72% da produção nordestina, cujos caprinocultores já dispõem de um razoável nível de organização visando melhorar as condições de produção e aproveitamento do leite via agregação de valor (pasteurizado, queijos, iogurtes etc.).

No intervalo entre os dois censos agropecuários, a produção de leite de cabra no Nordeste avançou 73,3%, com elevação significativa na produtividade visto que no mesmo período o rebanho total diminuiu. O destaque foi o desempenho dos estados do Rio Grande do Norte e da Paraíba, com altas de 1.095% e 355%, respectivamente. Contudo, em termos absolutos, Bahia (11,9 milhões de litros), Paraíba (4,4 milhões) e Pernambuco (2,9 milhões) respondem por 72% da produção total, graças a programas de incentivo e à inclusão do leite caprino na merenda escolar. Em escala nacional, o Nordeste hoje é responsável por 75% da produção.

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