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NORDESTE TEM MERCADO E CONDIÇÕES PARA DESENVOLVER ÁREA DE SEMENTES E MUDAS

O mercado mundial de sementes cresceu bastante nos últimos 30 anos, alcançando US$ 36,5 bilhões, em 2007, sendo de 5,5% a participação do Brasil. No Nordeste, onde a produção de mudas e sementes de qualidade ainda não atende à demanda, há boas condições climáticas para suprir as necessidades, mas o produtor esbarra em obstáculos variados e ameaças.

Por Ribamar Mesquita, Fortaleza [OUT. 2011]

O Nordeste dispõe de boas condições climáticas para suprir suas necessidades de mudas e sementes e encerrar o atual ciclo de demanda insatisfeita, especialmente no caso de material hibrido para hortaliças, milho e melão.

A região oferece vantagens para a produção de sementes de hortaliças em microclimas de altitude, sementes orgânicas e mudas frutíferas, segmento para o qual existe uma demanda crescente por conta dos perímetros irrigados. Mas, também, esbarra em problemas como a desorganização de produtores, gestão ineficiente do negócio, inconsciência quanto ao uso de material de boa qualidade e falta de informações consolidadas sobre o mercado e a situação da produção, principalmente para mudas.

Além disso, existem também as questões relacionadas com o domínio do mercado pelas multinacionais, a perda de diversidade genética provocada pelo uso de sementes híbridas e a concorrência de outras regiões do País.

O clima é um dos fatores que mais favorecem a produção de sementes e mudas no Nordeste. Como explica a agrônoma Maria de Fátima Vidal, mestre em economia rural, a chuva concentrada em um período do ano e a baixa umidade relativa do ar proporcionam baixa incidência de doenças enquanto o uso da irrigação confere estabilidade da produção e elevada produtividade e qualidade das sementes.

E mais: zonas isoladas da região, distantes de cultivos de hortaliças, podem representar opções para a produção de sementes livres de pragas e doenças, com destaque para as de abóbora, alface, berinjela, cebola, coentro, feijão, melancia, melão, pepino, pimentão, quiabo e tomate.

Pesquisa e recursos contra obstáculos

Um estudo recente realizado pelo BNB-ETENE informa que no caso da fruticultura, o produtor nordestino produz suas próprias mudas ou importa de outros estados, sendo pequena a quantidade proveniente do exterior. Mas a produção é insatisfatória e o material disponibilizado, em muitos casos, apresenta problemas fitossanitários e de uniformidade.

Para vencer os obstáculos, o Nordeste conta, de um lado, com várias unidades da Embrapa, universidades e as empresas estaduais de pesquisas, todas aptas a desenvolver e fornecer material de boa qualidade. Do outro, com a posição do BNB de: reconhecer a necessidade de adequar o crédito para produção de sementes e mudas, visando especificamente à fruticultura; vincular a concessão do crédito de investimento em formação de culturas à aquisição de mudas certificadas de viveiristas credenciados; e estimular o fortalecimento das instituições de pesquisas via alocação de recursos para pesquisa e difusão de tecnologia na área de produção de sementes e mudas.

Concentração e dependência

O mercado mundial de sementes cresceu muito nos últimos 30 anos: de US$ 13 bilhões, em 1979, evoluiu para US$ 36,5 bilhões, em 2007. Os Estados Unidos respondem por 23% desse total, seguindo-se China (11%), França (5,7%) e Brasil, com 5,5%, equivalentes a US$ 2 bilhões, sendo a maioria proveniente de dois produtos: milho, com R$ 1,9 bilhão e soja, R$ 0,8 bilhão.

O setor é cada vez mais controlado por multinacionais. Hoje, os cinco maiores grupos do mercado de olerícolas detêm aproximadamente 70% do mercado mundial de sementes. Quinze companhias apenas vendem 45% das sementes consumidas no mundo. Com um detalhe: em determinados nichos a situação é de virtual monopólio. Caso da semente de beterraba cuja produção é controlada por três empresas e do milho em que as cinco maiores representam 85% do mercado.

No Brasil, a maior dependência está nas sementes híbridas de hortaliças como o tomate que vêm todas de fora. Considerando o preço pago, o agricultor gastou cerca de US$ 101,3 milhões, em 2007, com sementes híbridas, 35% oriundos de importações. De um lado, seu uso traz vantagens pelo aumento de produção. De outro, deixa o produtor refém da compra anual, pois ele não pode guardar parte da produção para a semeadura da safra seguinte, e traz prejuízos ao patrimônio genético nacional.

Fátima Vidal, que também é pesquisadora do BNB-Etene,em Fortaleza, sustenta que o uso contínuo do produto híbrido contribui para o extermínio das chamadas sementes crioulas tradicionais ou locais, guardadas e selecionadas pelos produtores rurais ao longo de décadas. "São sementes que possuem capacidade significativa de adaptação aos diferentes ambientes devido à sua alta variabilidade genética e que por conta disso exigem menos insumos (adubos químicos, inseticidas e herbicidas) para garantir produtividade", esclarece ela.

O que barra o maior uso desse tipo de semente no Brasil é o preço salgado. Conforme a pesquisadora, a diferença entre uma semente híbrida e não-híbrida pode variar de dez vezes, no caso do arroz, a cinco vezes no de milho podendo, ainda, o agricultor estar sujeito ao pagamento de uma taxa extra para o seu plantio, se a semente for transgênica.

Fátima não confirma a analogia, mas o preço da semente híbrida de algumas variedades de hortaliças supera o de muitos metais preciosos. Por exemplo, o tomate cereja chipano longa vida (R$ 119,8/1000 sementes, aproximadamente 7 g) deixa longe a prata -- US$ 16,83 a onça troy (31,1 g) na Bolsa de Nova Iorque. O preço de um grama do melão Canarian, por exemplo, é quase um terço da mesma quantidade de ouro. Mil sementes são vendidas a R$ 140,00, enquanto o ouro alcançava R$ 66,00/g, em janeiro deste ano. Em outros termos de comparação: com um grama de semente de melão era possível comprar mais de 20 kg de soja ou 32 de arroz tipo longo considerado o preço pago ao produtor pela CONAB na safra a safra 2008-2009.

Produtores e exportações

A produção, a comercialização e o beneficiamento de sementes e mudas no Brasil estão sujeitos ao preenchimento de uma série de exigências para garantir a identidade e qualidade do material em todo o território nacional. Em 2008, mais da metade da semente colocada no mercado brasileiro já tinha origem certificada, o que revela a preocupação do produtor pela qualidade do que produz e redução da dependência de insumos externos.

A produção nacional de sementes está no Sul e Centro-Oeste. No Nordeste, a produção ocorre especialmente no vale do São Francisco, mas outras zonas também marcam presença.

As exportações de sementes dobraram em três anos, atingindo US$ 73,7 milhões em 2008. Em 2009, até janeiro, o total foi de US$ 52,3 milhões. O destino de 90% das vendas é a América Latina, especialmente Venezuela, Colômbia e México e 75% referem-se a sementes de forrageiras. No Nordeste, são incipientes: US$ 2,7 milhões, em 2008, US$ 1,9 milhão em 2009, te agosto, com destaque para Maranhão e Piauí. As importações também são insignificantes – US$ 400 mil em 2008 (US$ 69 milhos em termos nacionais) e procedem principalmente da Espanha e da Argentina.

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