Anuncie Aqui

BOVINOCULTURA LEITEIRA NA REGIÃO NORDESTE: VANTAGENS, POTENCIAL E DIFICULDADES

bovinos-fotoCom uma demanda insatisfeita, melhoria da renda da população, consumo crescente do produto e maior preocupação com a segurança alimentar, entre outros fatores positivos, o Nordeste apresenta condições favoráveis para o desenvolvimento da pecuária de leite. Para tanto, deve se concentrar num sistema produtivo focado na maximização do lucro, por meio do uso eficiente dos fatores de produção da fazenda - instalações funcionais, genética adequada, uso reduzido de concentrados, prioridade a alimentos a partir de forragens.

[AGÊNCIA PRODETEC ππ DEZ. 2011]

A soma das vantagens e oportunidades oferecidas pela pecuária leiteira no Nordeste supera as eventuais dificuldades e ameaças. A atividade apresenta muitos pontos fortes na região, a exemplo de uma boa capacidade industrial instalada, disponibilidade de acesso a tecnologias de produção e beneficiamento do leite, elevada elasticidade-renda da demanda do leite e derivados, execução do Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) do Governo Federal, aumento do consumo de artigos de maior valor agregado e o pagamento diferenciado por qualidade do produto, por parte dos laticínios.

Além desses aspectos, vale salientar que a produção leiteira também pode tirar partido da elevação da renda do nordestino, do incentivo oficial ao consumo de produtos lácteos em creches e escolas, do maior controle sanitário dos rebanhos e da melhoria da infraestrutura e execução de grandes projetos estruturantes na região.

Segundo trabalho divulgado pelo ETENE, algumas dificuldades ainda limitam o desenvolvimento da pecuária leiteira nordestina. É o caso da desorganização dos produtores, sazonalidade de oferta e limitações econômicas e tecnológicas, informalidade na produção e na comercialização, falta de apoio ao setor, aumento dos custos de produção e da importação desleal.

Recomendações

De acordo com o estudo do ETENE, já disponível na Intranet, essas limitações poderiam ser superadas com a adoção de uma série de práticas e recomendações. O pesquisador Luciano Ximenes, do Etene-Fundeci, lembra algumas recomendações relevantes para o produtor de leite:

• Foco na redução de custos e maximização do lucro;

• Maior uso de forragens e de silagens em detrimento de concentrados;

• Instalações funcionais e de baixo custo;

• Versatilidade nas receitas do sistema de produção, por meio do uso de genética adequada, vacas de dupla aptidão (corte e leite) ou vacas de leite e bezerros de corte;

• Adoção da escrituração zootécnica e contábil, mesmo que seja apenas de receitas e despesas;

• Organização e gestão dos produtores rurais em associações ou cooperativas, possibilitando-lhes maior força política;

• Pagamento diferenciado por qualidade de sólidos (gordura e proteína) e de células somáticas;

• Redução de ICMS e melhor harmonia da legislação entre Estados;

• Alíquotas zero da contribuição do PIS/Pasep/Cofins incidentes na importação/receita bruta de venda no mercado interno para: a) o leite fluido pasteurizado ou industrializado, na forma de ultrapasteurizado, leite em pó, integral ou desnatado, destinados ao consumo humano, e; b) em queijos tipo mussarela, minas, prato, queijo de coalho, ricota e requeijão (Lei 11.196, de 21 de novembro de 2005).

Apoio de R$ 502 milhões

O Banco do Nordeste tem uma tradição no apoio à pecuária leiteira, beneficiando especialmente os pequenos produtores. Em 2010, de todos os recursos aplicados no segmento (R$ 502 milhões) cerca de 70% foram direcionados à produção de leite no âmbito da agricultura familiar. Desse total, o semiárido absorveu R$ 390,3 milhões ou 77,7% de todo o volume destinado à bovinocultura leiteira pelo BNB.

Esse apoio ensejou um aumento de 16,3% da atividade no semiárido com melhorias representativas em vários indicadores técnicos nas áreas zootécnicas (produção diária, produtividade), de ocupação da terra (mais eficiência na produção de alimentos) e ambiental (redução de queimadas, preservação de florestas e nascentes).

Atualmente, o Brasil é o quinto maior produtor de leite do mundo com estimativa de 31,5 bilhões de litros em 2011, atrás de Estados Unidos, China, Índia e Rússia. Em dez anos, a expansão foi de 50%, alcançando 5,2% da produção mundial. Na outra ponta, o Brasil ocupa a quarta posição como consumidor de leite integral depois de chineses, indianos e norte-americanos, mas já apresenta superávit interno da ordem de 1,4 bilhão de litros, em 2010.

A exportação desse excedente, no entanto, esbarra em problemas burocráticos, de estrutura e logística que vão desde as condições da malha rodoferroviária a portos inadequados, além das dificuldades atinentes às próprias características do leite fluido e derivados frescos, cuja alta perecibilidade eleva os custos de transporte e de estocagem e aumenta os riscos de perdas.

Em termos de mercado, em 2011, os preços se mostraram favoráveis em função da forte demanda mundial, gerando cenário positivo quanto às exportadores de leite em pó hoje lideradas pela Nova Zelândia, um país pouco maior que o Piauí (251 mil km2), que pode servir de exemplo para o Brasil nos aspectos de gestão e organização do setor.

De outro lado, o fato de contar com uma produção maior que o consumo de leite não impediu o país de registrar déficit em sua balança comercial de produtos lácteos, em 2010, quando as importações somaram US$ 326,9 milhões e as exportações US$ 131,6 milhões. Desde 2005, quando ocorreu o último superávit, o país registrou déficit de US$ 325,4 milhões no seu comércio externo de lácteos, quase todo beneficiando a Argentina.

Destaque do Nordeste

Conforme o estudo realizado pelo ETENE, a análise da produção e da produtividade da pecuária leiteira no Brasil no quadriênio 2007/2010 mostra que o Nordeste foi a região que mais evoluiu quanto à participação de pecuaristas no fornecimento aos laticínios, com destaque para a agricultura familiar.

Já no período 2000/10, a produção regional ampliou-se de 2,39 bilhões para 3,34 bilhões de litros enquanto mais que dobrou o total de unidades produtoras, de 650 mil para 1.429 mil.

Esse crescimento repercutiu no aumento da quantidade (14,5%) e de empregos formais (41,2%) no segmento de laticínios entre 2006/09.

Tabela – Produção e Produtores de Leite no Nordeste, no Período de 2000 a 2010.

pesquisa-pecuaria-municipal

 

 

 

 

 

Indicadores técnicos e econômicos

Para Luciano Ximenes, no Brasil, onde o produtor de leite se considera refém do mercado que abastece, sua alternativa é pela produção de baixo custo. Tendo enfrentado, nas últimas décadas, queda considerável nos preços recebidos, elevação nos custos com insumos e na concorrência externa de lácteos subsidiados, além de outras dificuldades, ele não limitou a produção, mas não tem força para definir preços, como se dá com grandes fornecedores que a partir de determinada escala conseguem contratos a preço constante ao longo do ano.

No caso dos pequenos produtores do Nordeste, cerca de 90% não adotam nenhum processo de resfriamento e quase a totalidade destes não tem escrituração zootécnica e contábil, não tem vínculos com cooperativas de classe e baixo relacionamento com os demais atores da cadeia produtiva. Nos últimos anos, eles têm contado com medidas pontuais de apoio, a exemplo do Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) e do combate à febre aftosa, mas não há políticas específicas para o setor que poderiam começar pela definição de requisitos claros para os projetos de financiamento aos bancos públicos, notadamente ao tipo de animal e as inversões do sistema de produção, sempre no sentido da produção econômica, bem como de incentivos fiscais para os produtores e laticínios.

Uma das recomendações nesse sentido seria por animais cuja criação proporciona maior lucro e menores custos de produção e de manutenção, ou seja, o genótipo adequado à sua realidade de manejo.

Vantagens do híbrido

A literatura nacional indica, por meio dos diversos trabalhos, uma superioridade dos mestiços em relação às raças especializadas, especialmente do híbrido F1 (½ Holandês-Zebu) que apresenta características lucrativas como rusticidade, resistência e alta produção, além de maior número de crias, melhor precocidade e maior vida útil em relação aos demais grupos genéticos.

Sua criação a pasto, comparativamente ao sistema de confinamento adotado para as chamadas raças especializadas, implica menores investimentos com instalações e maquinaria e tem menor impacto ambiental. De acordo com diversos especialistas, a F1 tanto pode produzir leite a preços mais competitivos, em ambiente de muitas limitações, como pode também produzir bezerros de qualidade, contribuindo para a pecuária leiteira tornar-se mais rentável.

Um desses especialistas, o pesquisador Fernando Enrique Madalena, da Universidade Federal de Minas Gerais, propõe esquema de reposição contínua em que o produtor agregaria valor à produção com a venda de fêmeas F1 para fazendas leiteiras e de machos F1 como opção para recria e engorda, além da comercialização de tourinhos zebus. Fazendas associadas a uma agência organizadora seriam responsáveis por manter parte do rebanho de fêmeas Zebus para reposição e parte para produção de fêmeas F1 para as fazendas leiteiras. O esquema simples de produção com F1 foi baseado na experiência de produtores de Minas Gerais.

Tabela – Características Produtivas e Reprodutivas Expressas por Dia de Vida Útil de Seis Tipos de Cruzamentos Entre as Raças Holandesas x Guzerá.

tabela-bovinos

Voltar

 

A agência Prodetec é uma ferramenta voltada para divulgar artigos, estudos e pesquisas
sobre assuntos relacionados com o Nordeste

Imagine Comunicação Digital

Todos os direitos reservados. Reprodução do material permitida mediante citação da fonte.