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AGRICULTURA. FATOR CULTURAL DIFICULTA EXPLORAÇÃO DO GIRASSOL NO NORDESTE –II

Experiências conduzidas em diferentes áreas do Nordeste, a exemplo do Meio Norte, deixam claro o potencial da cultura nos estados do Piauí e Maranhão. Na região de Chapadinha (MA), a 240 km de Teresina, o rendimento obtido em ensaios realizados no período de 2008 a 2011 superou a média nacional.

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Foto: Cleberson Flauzino Arantes

Por Ribamar Mesquita, para a AGÊNCIA PRODETEC [Junho 2014]

Teresina - Criador do Proálcool na década de setenta, o cientista baiano Bautista Vidal preferia o girassol à mamona como carro chefe do programa de biodiesel no país, especialmente do Nordeste, por ser mais viável sob os aspectos econômico e ambiental. Nesse sentido chegou a contatar governos de vários estados nordestinos então mais voltados para a exploração da mamona, a partir de indicação de Brasília.

Não conseguiu entusiasmar os governos estaduais para a sua tese, mas a sustentou até a sua morte há pouco mais de um ano. Segundo ele, o óleo da mamona era muito mais caro que o óleo diesel no mercado internacional, enquanto o girassol resiste à seca, custa menos e pode fornecer óleo menos de três meses após plantado contra até 18 meses da mamona, dependendo da variedade.

O resultado é que a cultura do girassol não engrenou no Nordeste. A área plantada em 2012 não passou de 30 hectares, com produção de sete toneladas, conforme dados do IBGE. No ano seguinte, a cultura foi praticamente dizimada dos campos nordestinos, com estimativa de produção de apenas uma tonelada na região contra 109,4 mil toneladas no Brasil como um todo, com destaque para o estado do Mato Grosso.

O aparente desprezo pelo plantio do girassol na região estaria mais associado a aspectos de natureza cultural do que a ocorrências de secas. O produtor nordestino dá preferência às culturas tradicionais de alimentos (arroz, feijão, mandioca, milho), o que dificulta a introdução de novidades como o girassol, embora esse grão tenha múltiplos usos, agregue valor à produção e apresente uma série de características que o tornam de fácil cultivo na região Nordeste.

Grande potencial

Existe muito espaço para o aproveitamento do girassol no Nordeste, isoladamente ou em consórcio com outras culturas, podendo contribuir para elevar e diversificar a fonte de renda do produtor rural, especialmente no caso da agricultura familiar, desde que tanto pode ser usado para a produção de óleo e ração animal, como fonte de pasto para abelhas (produção de mel).

As pesquisas em torno do girassol foram aceleradas a partir da década passada, já tendo a Embrapa desenvolvido sementes com bom desempenho.

No caso do Nordeste, que abrange nove estados e diferentes ambientes, desde a pré-amazônia maranhense até a fronteira da Bahia com o Sudeste e o Centro-Oeste, os pesquisadores se esforçam em busca de cultivares que apresentem boas respostas ao produtor local.

Ensaios no Baixo Parnaíba

A Embrapa Meio Norte, de Teresina, por exemplo, tem conduzido uma série de experiências que deixam claro o potencial da cultura nos estados do Piauí e Maranhão.

Em Mata Roma, município da região de Chapadinha (MA), a 220 km de Teresina, o rendimento obtido em ensaios realizados no período de 2008 a 2011 superou a média nacional de 1.297 kg/ha.

Os experimentos realizados e os rendimentos neles obtidos demonstram que a região possui potencial para cultivo do girassol em escala comercial.

Foram avaliadas características como rendimento de grãos, teor e rendimento de óleo, floração inicial, altura da planta e tamanho de capítulo.

Melhores desempenhos

A análise dos resultados obtidos no intervalo da pesquisa (2008 a 2011) mostra que os genótipos HLT 5004, NTO 3.0, EXP 1450 HO, HLA 05-62, BRS GIRA 26, Agrobel 960, V70004, Paraíso 65, Hélio 358 e Zenit se destacaram na variável teor de óleo.

No caso da produtividade sobressaíram-se as variedades Agrobel, Zenit, Paraíso 65, BRS Gira 26, EXO 1450 HO, HLT 5004, NTO 3.0 e Hélio 358, todas com rendimento acima de dois mil quilos por hectare. Com produtividade um pouco abaixo, mas superior à média nacional aparecem V70004, M734, GNZ Neon, QC 6730, GNZ Ciro e HLA 05-62.

No tocante ao rendimento de óleo (quilograma por hectare) os pesquisadores alinharam, entre os dez melhores desempenhos, os genótipos Agrobel 960, EXP 1450 HO, Paraíso 65, Zenit, BRS Gira 26, V70004, BTO 3.0, HLT 5004, Hélio 358 e M734.

Média inicial

Para o ano inicial da experiência (2008), feita na Fazenda Unha de Gato, considerada a média, a produtividade alcançada foi de 2.014 kg/ha, 43,5% para o teor de óleo e 875 kg/ ha para rendimento de óleo.

Conforme os técnicos, o índice pluvial no período (meses de março a junho), em torno de 801,7 mm, não interferiu negativamente na produtividade ou nos componentes de produção (altura da planta e tamanho do capítulo).

No ano seguinte, a produtividade obtida foi um pouco maior, respectivamente: 2.003 kg/ha para o genótipo agrobel 960; 2.020 kg/ha para o EXP 1450 HO; 2.029 kg/ ha para o Hélio 358; 2.034 kg/ha para o NTO 3.00; e 2.083 kg/ ha para o genótipo HLT 5004.

O índice pluvial entre o plantio (fevereiro) e a colheita (junho), em torno de 1.467 mm, que poderia ter proporcionado maior produtividade, acabou prejudicando face ao excesso de umidade no solo, o que levou ao tombamento de plantas e ao apodrecimento de grãos. Isso significa – dizem os especialistas - que cultura local do girassol não suporta índices pluviais superiores a 600 mm.

O trabalho foi conduzido pelos pesquisadores José Lopes Ribeiro, Valdenir Queiroz Ribeiro, Cláudio Guilherme Portela de Carvalho e Sérgio Luiz Gonçalves, os dois primeiros dos quadros da Embrapa Meio Norte e os demais da Embrapa soja.

A íntegra do trabalho está na página da Embrapa Meio Norte (Comunicado técnico 231 - Comportamento de genótipos de girassol no município de Mata Roma, MA, no período de 2008 a 2011).

Ensaio sobre girassol de 2008 a 2011. Genótipos com os melhores desempenhos a cada ano, em termos de produtividade, teor e rendimento de óleo

 

Ano/genótipo

Produtividade Kg/ha

Teor óleo (%)

Rendimento de óleo kg/ha

2008

 

 

 

Agrobel 960

2.640

43,8

1.166

Zenit

2.281

38,8

992

Paraíso 65

2.231

43,5

1.027

BRS Gira 26

2.203

45,1

929

EXP 1450 HO

2.137

46,8

1.101

NTO 3.0

1.931

47,0

836

HLT 5004

1.746

47,2

817

2009

 

 

-

HLT 5004

2.083

-

-

NTO 3.0

2.034

-

-

Hélio 358

2.029

-

-

EXP 1450 H0

2.020

-

-

Agrobel 960

2.003

-

-

2010

 

 

 

Agrobel 960

1.994

44,8

895

V70004

1.985

44,5

872

M734

1.982

37,7

744

GNZ Neon

1.843

38,2

704

HLA 05-62

1.504

46,3

699

2011

 

 

 

Hélio 358

1.895

41,7

788

V70004

1.887

40,7

767

QC 6730

1.747

38,1

666

M734

1.595

36,8

583

GNZ Ciro

1.555

38,4

596

Fonte: Embrapa Meio Norte.

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