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RESÍDUO DA INDÚSTRIA CALÇADISTA PODERÁ SER UTILIZADO NA ELABORAÇÃO DE ASFALTO

Campina Grande (Agência Prodetec) - A modelo famosa que desfila com a sandália da moda e atrai a atenção de consumidoras país afora talvez nem desconfie do passivo ambiental gerado pela confecção do produto. Mas é fato: materiais utilizados na indústria calçadista, a exemplo do polímero identificado pela sigla EVA (etileno acetato de vinila), acarretam poluição ambiental e apresentam resistência relativamente alta a agentes biológicos. E mais: podem causar sérios problemas quando descartados de forma inadequada, pois se trata de um resíduo classificado como perigoso (classe 1), por conter teores de zinco e de alumínio acima dos limites normativos.

Estima-se que um quinto do polímero usado na fabricação de calçado no Brasil é desperdiçado, o que equivalia a cerca de oito mil toneladas de aparas no final da década passada. Atualmente, esse total pode ser bem mais representativo já que a produção nacional de calçados alcança mais de 800 milhões de pares por ano.

Em geral, todo esse material, de difícil degradação, acaba nos lixões e aterros sanitários, embora possa ser passível de aproveitamento.

Alguns especialistas sugerem, por exemplo, a reutilização das aparas de EVA como componente das misturas asfálticas, o que resultaria benefícios de ordem econômica e ambiental.

Objetivos

Em Campina Grande, sua cidade natal, a engenheira Dennyele Alves Gama levou um bom tempo preocupada com o descarte de EVA por parte da indústria calçadista local, uma das maiores do país, com exportações em torno de US$ 90 milhões, ano passado. Tanto que elegeu a questão como tema de sua dissertação de mestrado em Engenharia Civil e Ambiental na Universidade Federal de Campina Grande, em 2013.

O foco principal de seu trabalho foi avaliar as propriedades mecânicas de misturas de asfalto contendo resíduo do etileno acetato de vinila, material amplamente utilizado pelas fábricas de calçados. Mas examinou também a comparação das propriedades físicas e reológicas de ligante asfáltico convencional com o modificado a partir do resíduo de EVA, bem como as repercussões de seu uso sobre as propriedades mecânicas da mistura asfáltica elaborada com o material. Outro ponto abordado foi a avaliação da viabilidade ambiental de misturas asfálticas confeccionadas com ligante asfáltico modificado por resíduo de EVA.

Alternativa eficaz

No decorrer do trabalho, foram realizados diferentes ensaios com o material (de penetração, ponto de amolecimento e viscosidade rotacional e de classificação segundo normas da ABNT), bem assim ensaios de resistência à tração, de resiliência e Lottman nas misturas asfálticas.

Segundo Denyelle Gama, triturado e incorporado ao cimento asfáltico de petróleo (cap) em teores de 0 a 5%, observou-se aumento na viscosidade do ligante asfáltico modificado e atendimento às exigências do DNIT quanto à resistência à tração e módulo de resiliência. "Ou seja, - o uso do resíduo do EVA na pavimentação mostrou-se uma alternativa eficaz de destino, por atender aos requisitos estabelecidos pelo DNIT para uso na pavimentação asfáltica", acrescenta ela.

Conforme os especialistas, a razão de se combinar ligantes asfálticos com determinados polímeros é prevenir a degradação prematura do pavimento e prolongar sua vida útil. Com a adição de polímeros ao cimento asfáltico tradicional tem-se, além de uma alternativa ambientalmente adequada, outro aspecto muito importante de cunho econômico: a redução de custo de manutenção das estradas provocado pela degradação do pavimento asfáltico.
No caso do EVA, é o polímero com melhor comportamento quando misturado ao ligante asfáltico. Por isso, é um dos principais usados na modificação do cap pelo fato de apresentar elevada resistência inicial, o que dificulta as deformações dos ligantes asfálticos modificados.

Resultados satisfatórios

De um modo geral, a pesquisa de Denyelle Gama com o resíduo do EVA para uso no cimento asfáltico de petróleo apresentou comportamento satisfatório, dentro das faixas aceitáveis pelas normas brasileiras de uso na pavimentação, tendo, também, grande influência nos resultados, o aumento dos tempos de envelhecimento. Para a engenheira paraibana, as análises dos dados obtidos em seu trabalho permitiram concluir que:

a) O cap modificado com o polímero tornou-se mais duro e teve aumento 'do ponto de amolecimento', significando que a adição do EVA melhora a durabilidade da pavimentação.

b) A modificação com o resíduo do EVA promove um aumento da viscosidade do ligante, semelhante ao comportamento que ocorre quando o mesmo é modificado com um polímero termoplástico.

c) A classificação ambiental do resíduo na classe 1 devido à presença de elementos como zinco e alumínio, o primeiro de elevado potencial tóxico.

d) A realização dos ensaios mecânicos para as misturas asfálticas mostrou que para o resíduo de EVA da indústria calçadista da cidade de Campina Grande, com granulometria de 2 mm e incorporado nas condições de tempo, temperatura e velocidade, as misturas que atenderam a todos os requisitos foram as com até 2% de resíduo de EVA e com até 3 horas de envelhecimento.

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Mar/14

SOBRE O EVA

A utilização do resíduo do EVA em misturas asfálticas não chega a ser pioneiro, já que o EVA puro tem sido utilizado na modificação de ligantes asfaltos há mais de 30 anos.

Em relação a sua utilização, o EVA tem um vasto alcance estando presente nas indústrias automotiva, de calçados, mangueiras, adesivos holt-melt, brinquedos, isolante elétrico, proteção contra a corrosão, produção de bolsas de soro e embalagens de absorventes, entre outras.

A confecção de calçados, contudo, é a atividade que mais absorve o EVA, sobretudo resinas que contêm de 2% a 28% de acetato de vinila (VA) e índices de fluidez (MI) na faixa de 0,3 a 150 g/10min. A combinação destes dois parâmetros determina as propriedades da resina formada e, portanto, o seu campo de aplicação. Informa o engenheiro J.S.Ildefonso.

De acordo com dados da Associação Brasileira da Indústria de Plásticos (ABIPLAST, 2009), o consumo de resinas termoplásticas no Brasil em 2009 foi de 5,19 milhões de toneladas, sendo que o EVA representa cerca de 1% deste montante, 52 mil toneladas.

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