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FRUTA TEMPERADA NO SERTÃO NORDESTINO

plantio-macaAinda falta um pouco para virar realidade, o que muitos encaram com ceticismo e ironia: a produção de maçãs, peras e pêssegos em plena caatinga, tal como aconteceu com uva e morango no passado

Por Ribamar Mesquita, para a Agência Prodetec

O pesquisador Paulo Roberto Coelho Lopes, da Embrapa Semiárido, costuma lembrar a surpresa e ceticismo de colegas ao falar de suas experiências com frutas de clima temperado em plena caatinga. Quando apresenta as fotos das maçãs colhidas em Petrolina, a 640 km do Recife e 3.000 km do Rio Grande do Sul, a reação, invariavelmente é de incredulidade ou ironia.

-Está brincando! Isso é fotoshop...

Aí é preciso jurar por Deus e todos os apóstolos para vencer o estupor de colegas e platéia. Ele conta que antes o ceticismo já havia engavetado sua proposta de pesquisa no Banco do Nordeste (BNB), principal agência financeira nordestina, que dispõe de um fundo específico para apoiar projetos na área de desenvolvimento científico e tecnológico (Fundeci).

É que algum analista, menos ousado que Paulo, achou por bem "deixar dormindo" na gaveta aquela proposta de experiência com frutas temperadas no sertão. Ficou lá até que um dia o proponente se encontrou com o economista José Maria Marques, então coordenador do tal fundo. No intervalo de um evento do qual ambos participavam em Petrolina, Paulo o convidou para uma visita e lhe mostrou os canteiros de macieiras floridas no campo experimental de Bebedouro, onde existe uma coleção da planta desde 2007.

Foi o suficiente para convencer o visitante a mandar analisar o processo engavetado.

Passa e xarope

Para quem continua céptico, é bom lembrar a história do pesquisador baiano Orlando Passos, também da Embrapa, que nos idos de oitenta ouvia gaúchos e paulistas desdenhando das pesquisas sobre uva e laranja na Região.

Uns e outros diziam que a uva, quando muito, serviria para aproveitar como passa e a laranja como xarope.

Hoje, a uva do vale do São Francisco abastece Estados Unidos e Europa e a laranja de Sergipe supre as esmagadoras paulistas de vez em quando.

Otimismo empresarial

Paulo tem muito otimismo com a maçã no sertão. Empresários como Gualberto Almeida, da Associação dos Produtores de Hortigranjeiros e Derivados do Vale do São Francisco (Valexport) não ficam atrás. Ele acha que em três anos o pessoal do Vale terá mais opções, além da uva e da manga que hoje concentram a produção e a exportação regional.

Outro entusiasta é o presidente do Instituto Frutal, o cearense Euvaldo Bringel, para quem a parte agronômica já está comprovada e o plantio em larga escala depende apenas da "comprovação da viabilidade econômica a campo".

Os resultados iniciais nesse sentido são positivos e, segundo Bringel, talvez se repita com as novas culturas "a mesma revolução ocorrida com a soja e a uva que se tornaram competitivas na região". Como há trinta anos, afirma ele, o Nordeste está às vésperas de transpor mais uma barreira, o que vai consolidar sua posição de grande exportador de frutas do Brasil.

Parceria cearense

O pessoal do Ceará, inclusive, acertou uma parceria com o pesquisador e a Embrapa durante a última Frutal, realizada em Fortaleza. Pelo acordo, de natureza tripartite, eles bancam parte das experiências disponibilizando áreas em cinco diferentes regiões do Estado, além de técnicos para acompanhar os experimentos de campo e compilar informações para enriquecer o banco de dados do pesquisador e o volume de observações.

Com os informes obtidos nas chapadas do Apodi e da Ibiapaba e em áreas irrigadas será possível ter diversidade de dados quanto ao comportamento das mudas.

Esses empresários lembram que o morango já é produzido com facilidade no Ceará.

Na verdade, a maioria está de olho mesmo é no mercado nordestino. Hoje, toda a maçã consumida na região procede do Sul ou da Argentina, percorrendo até 4.000 km para chegar à mesa do consumidor.

Os números são controversos, mas estima-se que, anualmente, a região Nordeste importa entre 200 e 250 mil toneladas da fruta fresca e sucos de maçã e pêssego, além de produtos como doces, geléias, sorvetes etc. O volume de negócios é desconhecido oficialmente, mas há indicadores segundo os quais empataria com o valor de produção de muitas frutas cultivadas no Nordeste.

Novas opções para o semiárido

O projeto conduzido pelo agrônomo Paulo Roberto é parte do esforço por novas opções de culturas para áreas de irrigação do semiárido brasileiro. Tendo entre os parceiros principais o Banco do Nordeste, sua meta principal é verificar o desempenho agronômico e econômico de espécies frutíferas de clima temperado.

As informações técnicas já disponíveis nesse sentido são promissores, já tendo nos dois anos iniciais, conseguido induzir a floração da planta e produzir frutos de boa qualidade.

O maior desafio dos pesquisadores é vencer a questão das diferenças climáticas até conseguir uma variedade adaptada às condições do semiárido. Paulo Roberto trabalha com variedades menos dependentes do frio. Conforme explica, a variedade menos exigente necessita entre 300 e 350 horas de frio e temperatura em torno de 70C para brotar. Só que no pólo de Petrolina/Juazeiro, fronteira da Bahia com Pernambuco, as temperaturas estão muito longe disso: no período de clima mais ameno, entre junho e julho, a mínina fica entre 180C e 200 C.

Para José Maria Marques, atual gerente-executivo do BNB-Fundeci, o Nordeste está diante de outro desafio tal e qual o representado pela soja e a própria uva no passado. "Não foi uma coisa fácil, mas a inteligência nordestina acabou superando as dificuldades e hoje uma e outra são atividades de grande relevância para a economia regional", diz.

Produção nacional

O grosso da maçã (98%) nacional procede de locais em torno de 1000 metros de altitude dos estados de Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Paraná e São Paulo. A produção na safra 2007/08 foi de 830 mil toneladas da fruta fresca, concentrada especialmente em Santa Catarina (460 mil t) e Rio Grande do Sul (330 mil t). Seu consumo in natura avançou bastante entre 1987 e 1996, passando de 4,1 kg/per capita/ano para 6,7 kg, decrescendo, entretanto, para 1,7 kg/per capita anual em 2003. Conforme dados do IBGE (Pesquisa de Orçamento Familiar), isso representa o maior consumo entre as frutas de clima temperado, muito acima das 120 gramas anuais do caqui, 200 gramas da pera e 600 gramas da uva.

Para saber mais, veja também o artigo do pesquisador Paulo Roberto na secção Prosa e Verbo.

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