Anuncie Aqui

NORDESTE. FIM DA BONANZA MUNDIAL PODE DIFICULTAR A RETOMADA DA ECONOMIA

O fim da bonança internacional a partir de 2011, comandada até então pelo frenesi da economia chinesa, vai implicar menor desenvolvimento econômico do Nordeste. Não tendo realizado mudanças em sua estrutura produtiva durante o ciclo de expansão recente, a região enfrentará dificuldades para retomar uma nova era de expansão. Com essa ausência de mudanças, tanto em âmbito nacional quanto regional, o país e a região seguem dependentes das condições externas, atrelados à taxa de crescimento das economias mais dinâmicas.

AGÊNCIA PRODETEC ΩΩ [FEVEREIRO 2016]

Rio de Janeiro – A conclusão é de economistas do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro: o crescimento experimentado pelo Brasil e pelo Nordeste entre 2002 e 2011 não foi acompanhado por mudanças produtivas estruturais. A indiferença quanto a isso está materializada na menor participação da indústria de transformação no PIB, tanto na região quanto no país, bem assim na especialização regressiva das exportações no período, restrições que poderão se ampliar ainda mais, impondo um esforço muito grande para alcançar novo ciclo de crescimento.

Segundo Maria Isabel Busato, Eduardo Costa Pinto e Ana Cristina Reif, as conquistas observadas nesse período, no entanto, não provocaram a derrubada das barreiras ao desenvolvimento - nos termos cepalinos.

Dizem que, apesar do maior dinamismo econômico e social registrado, permanece a dependência estrutural às condições externas e com a reversão do ciclo da economia mundial nesta década, "problemas como vulnerabilidade externa, especialização produtiva e das exportações e vazamento de renda para o exterior – que pareciam já resolvidos -- se recolocam para o país e para o Nordeste em suas trajetórias de desenvolvimento".

Eles detalham esses problemas em trabalho recente (veja "Dinâmica econômica do Nordeste à luz das condições externas: uma análise estruturalista", na secção Prosa e Verbo). Entre 2002 e 2014, a participação de produtos básicos e semimanufaturados nas exportações nordestinas ampliou-se de 50,4% para 52,9% enquanto no Brasil passou de 42,9% para 61,6%, sendo que o Brasil apresenta uma maior participação de produtos básicos ante a pauta do Nordeste. "A evolução das exportações brasileiras por fator agregado evidencia a existência de um processo de reprimarização em curso", informa Isabel Busato.

Outro fator relevante - acrescenta ela - é o expressivo crescimento da participação de manufaturas no total importado pelo Nordeste: de 75,4%, em 2002, elevou-se para 87%%, em 2014, apesar do menor ritmo da economia após 2011. Isso tem impactado a balança comercial da região, que desde 2010 registra déficits crescentes (US$ 37,5 bilhões entre 2010 e 2014), grande parte oriunda do segmento de manufaturas.

Isabel lembra que se a propensão a importar de bens finais e/ou de bens intermediários e de bens de capital é elevada, há vazamento da renda e consequente diminuição no efeito multiplicador e redução do efeito acelerador pela importação desses tipos de produtos.

Para Eduardo Costa Pinto, outro coautor do trabalho, os dados evidenciam a regressividade da inserção comercial nordestina e brasileira, uma vez que (i) as importações de produtos intensivos em tecnologia cresceram em velocidade maior do que as exportações deste tipo de produto; e (ii) os déficits comerciais (no Brasil, em 2014, e Nordeste nos últimos quatro anos) são gerados pela expansão das importações de manufaturas intensivas em tecnologia, especialmente os insumos industriais e os bens de consumo duráveis vindos da China.

Conforme Costa Pinto, a reprimarização tem como contraface o processo de especialização produtiva que cada vez mais avança na direção dos segmentos intensivos em recursos naturais. "Nesse sentido, vem ocorrendo um aprofundamento desse tipo de especialização, que se reflete na redução do papel desempenhado pela indústria no Nordeste e no Brasil", acentua ele.
Entre 2002 e 2013, a participação da indústria de transformação no valor adicionado total do Brasil caiu de 17,2% para 13%, enquanto no Nordeste declinou de 12,3%, em 2002, para 8,6%%%%, em 2012.

Fim da bonança, nova situação

De acordo com o trabalho dos pesquisadores do IE.UFRJ, com o final da bonança internacional, consequência do arrefecimento chinês, tem-se uma nova situação caracterizada por (a) menores taxas de crescimento da economia chinesa – com a consequente queda dos preços dos produtos básicos e semimanufaturados e piora dos termos de troca para o Brasil e para o Nordeste, já em curso (b) reduzidas taxas e crescimento do PIB brasileiro e nordestino (2,1% entre 2011 e 2014 e 2,4% entre 2011 e 2012, respectivamente); e (c) deterioração do saldo comercial do país e da região.

Nos últimos três anos, houve queda nas exportações do Nordeste (0,38%, em 2012; 8,01%, em 2013 e 7,85%, em 2014) e manutenção e/ou expansão das importações, sobretudo de manufaturas (7,8%, em 2012; 6,7%, em 2013 e 3,6%, em 2014), gerando, com isso, déficits recorrentes e crescentes da balança comercial.

Na opinião da economista Ana Cristina Reif, os efeitos da reversão cíclica internacional impactam e impactarão a economia brasileira em geral, e a do Nordeste, em particular. "Os cenários não são alvissareiros, ainda mais que não realizamos as mudanças necessárias na estrutura produtiva nacional e regional, mantendo a nossa dinâmica dependente das condições externas", sustenta.

-- Nesse sentido, políticas de estímulo à demanda agregada, se retomadas, seriam acompanhadas pelo aprofundamento do déficit comercial, o que não se sustentaria por muito tempo sem a entrada de capital compensatório. De qualquer forma, é sabido que acúmulos sucessivos de passivo externo não são sustentáveis no longo prazo. Logo, a taxa de crescimento da economia brasileira permanece atrelada à taxa de crescimento das economias mais dinâmicas, como previa a Cepal", afirma Cristina Reif.

Para os três pesquisadores, caso mudanças estruturais relevantes tivessem sido adotadas, a retomada da expansão poderia ser viabilizada por meio de política macroeconômica. No âmbito do Nordeste – acrescentam – espera-se uma dinâmica de crescimento mais lenta para a região, como resultado das restrições à adoção de políticas internas de estímulo à demanda e da queda atual dos preços dos produtos de parte de sua pauta de exportação.

Para saber mais acesse a secção Prosa e Verbo ou o endereço http://www.ie.ufrj.br/images/pesquisa/publicacoes/discussao/2015/TD_IE_019_2015_BUSATO_PINTO_REIF.pdf.

Voltar

 

A agência Prodetec é uma ferramenta voltada para divulgar artigos, estudos e pesquisas
sobre assuntos relacionados com o Nordeste

Imagine Comunicação Digital

Todos os direitos reservados. Reprodução do material permitida mediante citação da fonte.