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NORDESTE: SECAS MAIS SEVERAS NO FUTURO?

O panorama segue sombrio nos estados nordestinos às voltas com o quinto ano consecutivo de seca. Conforme a Agência Nacional das Águas, nesse mês de setembro, o armazenamento de água nos reservatórios ficou abaixo de 20%, deixando a situação entre grave e crítica nos estados do Ceará, Paraíba, Pernambuco e Rio Grande do Norte.

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José alvino mesquita para a agência prodetec ππ [SET. 2016]

Profetas populares, cientistas e órgãos de pesquisas divergem quanto às expectativas de inverno em 2017, no Nordeste. Depois de cinco anos seguidos de seca na região, a esperança do nordestino é de chuvas regulares e recuperação do monumental prejuízo provocado nesse último quinquênio à economia regional, sobretudo à atividade agropecuária.

Em análise divulgada nessa segunda-feira (26), a Climatempo, empresa especializada em meteorologia, afirma que as perspectivas de chuvas para o Nordeste, em 2017, são bem diferentes do ano passado. Segundo seus especialistas, o El Niño já terminou e não há previsão que o fenômeno retorne até o fim deste ano e nem em 2017.

Explicam que a formação de um evento La Niña - caracterizado por águas oceânicas mais frias do que o normal na porção central e leste do Pacífico Equatorial - e a inexistência do El Niño ensejam condições para o retorno da chuva ao Nordeste.

No quadro abaixo, a Climatempo sintetizou comportamento da chuva e da temperatura esperados para os estados do Nordeste na primavera de 2016.

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No Ministério das Minas e Energia, as perspectivas de inverno normal no Nordeste são mais pessimistas. A estimativa da EPE – Empresa de Pesquisa Energética é de que as chuvas fiquem em torno de 35% da média histórica, o que representa um estorvo à produção de energia e consequente instabilidade para a economia do Nordeste.

Regra e não exceção

O fato é que as secas mais severas e prolongadas no Nordeste tendem a ser regras e não exceções, caso se confirmem as projeções geradas pelos modelos climáticos, afirma o hidrologista e meteorologista José Antônio Marengo, do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), acrescentando que "a incerteza de ter este cenário futuro ainda existe", afirma o em Cachoeira Paulista, no interior de São Paulo.

Ele esteve ano passado em Fortaleza num simpoósiio sobre mudanças climáticas e esta semana publicou um artigo ( "Drought in Northeast Brazil - past, present, and future"), na revista Theoretical and Applied Climatology, juntamente com os pesquisadores Roger Rodrigues Torres, da Universidade Federal de Itajubá, e Lincoln Muniz Alves, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).

Em entrevista à Agência Fapesp, Marengo explicou que as projeções passadas indicam que a temperatura média no Nordeste já aumentou 0,8 grau centígrado entre 1900 e 2000. E o aquecimento vai aumentr. "Na melhor das hipóteses, as projeções apontam para uma elevação nas temperaturas médias de outros 2 graus centígrados até 2040, o que poderia também estar acompanhado de períodos secos mais intensos e longos".

No pior dos cenários, as projeções realizadas pelos autores do artigo mostram que a elevaçãoi das temperaturas prosseguirá até pelo menos o fim do século 21 fazendo com que, em 2100, as temperaturas nordestinas sejam em média até 4,4 graus superiores às atuais. "Nestas condições, se medidas governamentais sérias e imediatas não forem tomadas para, por exemplo, conter os desmatamentos, o sertão pode virar um grande deserto", alerta Marengo.

Segundo ele, o semiárido nordestino já é a região seca mais densamente povoada do planeta, com 34 habitantes por quilômetro quadrado. "As mudanças climáticas cobrarão do Nordeste um preço salgado. Sera inevitável? Hoje só temos uma certeza", diz o pesquisador. "A de que no futuro os períodos de seca serão mais longos e mais quentes."

O artigo Drought in Northeast Brazil - past, present, and future pode ser acessado em http://link.springer.com/article/10.1007/s00704-016-1840-8.

Panorama sombrio

A Agência Nacional das Águas informa que a estiagem severa no Nordeste, nos últimos cinco anos, contribuiu para esvaziamento gradual dos açudes da região.
Nesse mês de setembro, o armazenamento ficou abaixo de 20%, deixando a situação entre grave e crítica nos estados do Ceará, Paraíba, Pernambuco e Rio Grande do Norte.

Em Campina Grande e arredores, onde vivem mais de 400 mil pessoas, as autoridades não sabem como enfrentar o problema do abastecimento de água, igualmente preocupante na área abrangida pela bacia do rio São Francisco que apresenta redução de 16% nos níveis dos reservatórios, conforme dados da ANA. No caso do lago de Sobradinho, o nível chegou a meros 1% em 2015.

O quadro de tão grave já levou à decretação de estado de emergência em mais de 800 municípios nordestinos por parte do Ministério da Integração Nacional, cujo titular, Helder Barbalho, promete para o próximo ano a inauguração do trecho leste (Pernambuco e Paraíba) do projeto de transposição do Rio São Francisco, cujas obras se arrastam desde 2007. Mas, o eixo norte, que abrange Ceará e Rio Grande do Norte, ainda depende da escolha de uma empresa para a conclusão das obras, que foram abandonas pela empreiteira Mendes Junior em virtude de sua citação na operação Lava Jato.

Enquanto isso, os prejuízos à economia do Nordeste se acumulam em consequência de cinco anos seguidos de seca que afeta, inclusive, áreas pouco sujeitas a estiagens caso do Maranhão e partes da Bahia.

No Maranhão, a falta de chuvas atingiu de forma severa até a Baixada Maranhense, conhecida como 'pantanal do nordeste', deixando a região completamente desconfigurada, com prejuízos enormes para o ecossistema de todo o Norte maranhense. Atingiu também as áreas úmidas do Sul e Noroeste do estado, comprometendo a produção agrícola e pecuária do Estado, sobretudo, a safra de soja que acusou de quase 40% na estimativa de agosto/2016, feita pelo IBGE.

Nascentes, riachos, veredas e arrois viraram pó em boa parte do chamado Meio Norte. O total de queimadas cresce a cada mês, especialmente no Maranhão. Mesmo os grandes rios do Maranhão e Piauí se apequenaram. O velho monge, como é conhecido o Parnaíba, pode ser atravessado com pouco esforço e em muitos pontos ameaça 'cortar' caso as chuvas não cheguem logo.

Preocupado com o abastecimento humano, o Ceará ameaça parar uma termelétrica movida a carvão, não sabe como garantir água à siderúrgica do Pecém, praticamente paralisou a aquicultura e a irrigação, e inicia uma campanha para economizar água. Mesmo com todas essas dificuldades, até hoje não chegou aos interessados o dinheiro anunciado pelo Ministério da Integração para instalação de adutoras destinadas a minimizar o abastecimento de água em dezenas de municípios.

Menos produção

O IBGE calcula que mais de 1,2 milhão de hectares deixaram de ser cultivados entre a safra 2010/2011 e a de 2015/2016, período em que a irregularidade das chuvas se acentuou em todos os estados nordestinos.

A safra 2016 de cereais, leguminosas e oleaginosas deve sofrer uma queda de quase 40% sobre a anterior, baixando para 10,3 milhões de toneladas.

EVOLUÇÃO DA ÁREA PLANTADA NO NORDESTE NAS ÚLTIMAS SAFRAS (HA).

UF

2010/2011
(a)

2011 /12 (b)

2012 /13 (c)

2013/14 (d)

2014 /15
 (e)

2015 /16
(f)

Var.(%) f/a

NE

8.750,9

7.331,7

7.211,7

8.287,3

8.120,7

7.535,6

-13,89

MA

1.583,5

1.533,6

1.615,7

1.769,1

1.728,7

1.368,8

-13,55

PI

1.146,2

1.173,9

1.264,4

1.388,1

1.410,6

1.371,4

19,64

CE

1.434,1

1.014,6

787,7

921,5

907,7

866,4

-39,58

RN

157,1

17,3

29,1

69,0

59,3

68,2

-56,58

PB

329,9

79,4

109,8

155,3

122,9

180,8

-45,19

PE

634,2

442,1

275,9

482,0

460,1

461,9

-46,95

AL

122,6

69,0

79,5

81,2

79,9

88,7

-27,65

SE

268,4

243,0

244,4

266,5

214,8

216,9

-19,97

BA

3.074,9

2.758,8

2.805,2

3.154,6

3.136,7

2.912,5

-4,44

Fonte: IBGE. LSPAjunho.


No Rio Grande do Norte a seca prolongada trouxe consigo a tragédia do caju, uma das principais culturas agrícolas do estado. Com a estiagem, o cajueiral deixa de produzir e boa parte acaba nos fornos das cerâmicas vendido como lenha. A produção de frutas, outro ponto forte do agronegócio local, também foi bastante afetada.

A situação não se apresenta diferente nos demais estados, nem mesmo na Bahia, a maior economia do Nordeste. Todos eles sofreram prejuízos significativos na produção agropecuária como mostra a tabela abaixo, elaborada com base nos dados divulgados pelo IBGE no inicio de setembro.

NORDESTE. PRODUÇÃO DE CEREAIS, LEGUMINOSAS E OLEAGINOSAS, POR ESTADO. POSIÇÃO EM AGOSTO.

ESTADO

SAFRA 2015 (T)

SAFRA ATUAL (T)

VARIAÇÃO %

Maranhão

3 912 504    

2 296 677

  -41,3

Piauí

 3 052 743 

    1 430 383 

-53,1

Ceará

224 997      

             210 556

- 6,4

R. G. do Norte

 11 154       

      12 563

+12,6

Paraíba

 18 749      

    40 903

+118,2

Pernambuco

63 322     

  154 112

+143,4

Alagoas

48 170      

     56 047

+16,4

Sergipe

 530 763      

   312 800

-41,1

Bahia

 8 737 569   

  5 756 432

-34,1

NORDESTE

 16 599 974    

  10 270 476

 -38.1

BRASIL

209 399 320  

  186 111 697

-11,1

Fonte: IBGE LSPA Agosto.


Outros problemas

O rosário de problemas derivados da seca prolongada se estende a muitos outros aspectos da vida do nordestino. Caso da alimentação animal, do agravamento das condições de vida na periferia dos centros urbanos da região provocado pelo êxodo campo/cidade.

Sem estrutura suficiente e adequada para atender a tais fluxos as grandes cidades do Nordeste experimentaram no período aumento de problemas de saúde e segurança, atingindo em especial os mais idosos e os jovens, que, sem emprego acabam enveredando pelo caminho das drogas e da prostituição.

Resumindo: as cidades estão maiores, mais quentes, mais violentas e desassistidas.

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