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FRUTA TEMPERADA NO SEMIÁRIDO: RESULTADOS DAS PESQUISAS SUPERAM SURPRESA E CETICISMO

Engana-se quem não acredita nas possibilidades do sertão nordestino produzir frutas de clima temperado como maçã, pera e caqui. Com base nos resultados das pesquisas realizadas até aqui os técnicos já sugerem a viabilidade agronômica de plantios comerciais de maçãs no Vale do São Francisco e na Serra da Ibiapaba, na divisa do Ceará com o Piauí.

Imagem: Embrapa Semiárido
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Paulo Roberto e pesquisadores em plantio de maçã, em Petrolina.

JOSE FIJJO MESQUITA PARA A AGÊNCIA PRODETEC Ω [NOVEMBRO 2016.]

São Luís – Os resultados das pesquisas realizadas pela Embrapa Semiárido já mostram a viabilidade do cultivo de macieiras, pereiras e caquizeiros em pleno sertão nordestino. As cultivares (de maçã) 'Julieta', 'Eva' e 'Princesa' apresentaram bons desempenhos no Vale do São Francisco e na Serra da Ibiapaba, no Ceará.

Na região de Petrolina, a produção de maçã dessas cultivares, em plantas com dois anos de idade, foi respectivamente de 40, 36 e 41 toneladas por hectare, acima das registradas no Centro-Sul do Paraná.

No caso da Ibiapaba, esse rendimento foi mais modesto. No segundo ano de colheita foram obtidas 18,3 toneladas para a cultivar 'Eva'; 23,2 toneladas para a 'Princesa' e 21,8 toneladas por hectare para a 'Julieta'. Um detalhe que chamou a atenção na região cearense: o número médio de 131,2 frutos por planta superou o encontrado por pesquisadores nas áreas subtropicais no Leste Paulista.

Essas informações foram transmitidas pelo agrônomo Paulo Roberto Coelho Lopes a pesquisadores, produtores. professores, estudantes e jornalistas de todo o país durante o XXIV Congresso Brasileiro de Fruticultura, encerrado dia 21 de outubro, em São Luís (Veja a apresentação na secção Prosaeverbo: Introdução e produção de fruteiras de clima temperado em regiões tropicais).

Doutor em agronomia e pesquisador da Embrapa de Petrolina, Pulo Roberto conduz a pesquisa sobre introdução e produção de fruteiras de clima temperado em regiões tropicais, com a participação também de seus colegas Inez Vilar de Morais Oliveira, doutora em produção vegetal, e Diógenes Henrique Abrantes Sarmento, mestre em produção vegetal.

Segundo ele, com base nos resultados obtidos, já é possível recomendar plantios comerciais de maçãs, cultivares 'Princesa', 'Eva' e 'Julieta' no trecho submédio do rio São Francisco, em Pernambuco, na Serra da Ibiapaba, no Ceará. "A partir dos resultados obtidos será avaliado o custo de produção, receita obtida e a viabilidade econômica da cultura", explica Paulo Roberto.

Particularidades

Os frutos das três cultivares citadas apresentou uma boa distribuição de calibre (peso, diâmetro) ficando mais de 90% com tamanho comercial. O numero médio de frutos obtidos por cultivar foi de 200 para a cultivar 'Julieta', 185 para a 'Eva' e de 155 para a 'Princesa'.

O pesquisador da Embrapa informou que em Tianguá, na Serra da Ibiapaba, já foram colhidas três safras de maçãs, cultivar "Princesa", obtendo produtividades de 11,95 t/ha, em 2011; 23,2 t/ha em 2012 e 18,6 t/ha, em 2013. Conforme esclareceu, o número médio de frutos por planta na Serra da Ibiapaba foi de 131,2 unidades, resultado superior ao verificado por outros pesquisadores em condições subtropicais da região Leste de São Paulo, onde o total de frutos por planta alcançou apenas 95.

Ele explicou que as cultivares 'Julieta' e 'Eva" também apresentaram boas produções e qualidade na Ibiapaba, totalizando, no caso da 'Eva' rendimento de 8,14 toneladas, na safra colhida em 2011; 18,3 toneladas, em 2012 e 15,5 toneladas por hectare. Mesmo apresentando calibre (peso, diâmetro) de médio a pequeno as frutas foram facilmente comercializadas no mercado produtor de Tianguá.

No caso da cultivar 'Julieta' a produção no período 2011/2013 foram, respectivamente, de 10,2 toneladas; 21,8 toneladas e 16,7 toneladas por hectare/ha, apresentando calibre de médio a grande.

Conforme os estudos da Embrapa, as cultivares 'Princesa', 'Julieta' e 'Eva' se adaptaram bem às condições climáticas do Vale do São Francisco e da Serra da Ibiapaba em termos de formação de estruturas florais, floração, frutificação e qualidade dos frutos.

Para Paulo Roberto, a floração ocorre dez meses após o plantio, com florada abundante, excelente fixação e qualidade dos frutos. "As plantas da cultivar 'Princesa' apresentam vigor médio, a inserção dos ramos principais é semiaberta e os lançamentos são vigorosos. A floração é abundante e a frutificação pode ser considerada boa", esclarece.

Em resumo: na opinião do agrônomo Paulo Roberto Coelho a produção de maçãs tanto no Vale do São Francisco como na Serra da Ibiapaba poderá ser realizada entre setembro e dezembro, quatro meses antes da safra do Sul, o que permitiria a oferta de frutas mais frescas e melhores preços.

Maçã no Nordeste

A cultura da maçã já é praticada há algum tempo no Nordeste. De acordo com o IBGE, a Bahia é o sexto maior produtor nacional com 870 toneladas, patamar muito aquém de estados como Rio Grande do Sul e Santa Catarina que, juntos, responderam por quase 1,5 milhão de toneladas de maçãs, em 2014. Para a próxima safra a previsão é de apenas 1.264 mil toneladas.

Antes das experiências em Pernambuco e Ceará, o cultivo da macieira era restrito à Chapada Diamantina, área central do estado da Bahia, onde a altitude alcança até dois mil metros acima do nível do mar.

Iniciadas na década passada, os pomares experimentais no semiárido também abrange, além do submédio São Francisco e Serra da Ibiapaba, uma área próxima ao litoral cearense, no vale do rio Jaguaribe.

As cultivares Eva, Princesa e Julieta são as que têm apresentado melhores resultados, com excelente formação de estruturas florais (esporões, brindilas e dardos), floração e frutificação no Estado do Ceará.

O apelo comercial da pera

Originária de climas temperados e bem adaptada nos estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Minas Gerais, Paraná e São Paulo, a pereira pode, também, passar a ser produzida no Nordeste, nos próximos anos. Mais do que a maçã, o cultivo da pera apresenta um grande apelo comercial para o Nordeste, dado que 90% do consumo da fruta hoje referem-se a importações, algo em volta de 51 mil toneladas entre janeiro e abril deste ano, equivalentes a US$ 48 milhões.

Os esforços atuais dos pesquisadores com a pereira no semiárido dizem respeito à substituição da dormência – induzida pelo frio – pela redução da atividade vegetativa via estresse hídrico e uso de inibidores de crescimento.

Os estudos atuais, concentrados na microrregião do Submédio do Vale do São Francisco, mostram que a pera pode produzir no segundo ano de cultivo, "desde que manejadas adequadamente para a condição climática semiárida tropical" e a produção comercial já no terceiro ano de cultivo.

Durante o cultivo experimental da pereira em Petrolina foi avaliada a possibilidade da planta oferecer duas safras por ano, isso porque as estruturas florais completam a sua formação aos cinco meses após a brotação dos ramos. As variedades com maior potencial são a Triunfo e a Princesinha, oriundas do Instituto Agronômico de Campinas (IAC), e as cultivares Packham's Triumph e Housui, importadas da Europa e Japão, respectivamente, sendo a primeira "vigorosa, produtiva e de rápido crescimento", como diz o pesquisador.

Em outras palavras: o cultivo da pereira no semiárido brasileiro poderia ser uma alternativa para a diversificação da fruticultura nos perímetros irrigados da região, seja em função de seu apelo comercial, da possibilidade de produção em qualquer mês do ano e oferecer duas safras por ano com elevada produtividade.

Caqui

Em relação ao caquizeiro, outra espécie de clima temperado, cuja produção se concentra hoje no Sul e Sudeste, ela também pode ser uma saída promissora para a fruticultura nordestina, considerando tanto o mercado interno quanto o externo.

A relevância econômica do caquizeiro pode ser aferida pelo fato de o país ser o quarto maior produtor mundial da fruta, atrás de China, Coreia e Japão, com a colheita de 192,3 mil toneladas, em 2015, conforme o IBGE.

No Nordeste a produção de caquis ocorre apenas nas zonas altas da Chapada Diamantina (BA), onde foram colhidas 32 toneladas em 2014. Mas, a partir das pesquisas em andamento, provavelmente, esse panorama tende a mudar nos próximos anos visto que no Submédio do Vale do São Francisco a planta tem demonstrado bom desenvolvimento vegetativo, floração e frutificação efetiva.

Os estudos indicam que a cultivar 'Rama Forte' apresenta produção crescente ao longo dos anos de observação, com frutos de tamanho médio (130 g), achatados, taninoso, de sabor bastante agradável e consistente. A primeira produção, obtida no segundo ano após o plantio, somou 2,4 toneladas por hectare, em 2010; 6,2 mil toneladas em 2011 e 11,5 mil toneladas por hectare, em 2012.

Para os pesquisadores, considerando as variáveis climáticas do submédio do Vale do São Francisco a cultura do caquizeiro apresenta um grande potencial agronômico e econômico, podendo o período de colheita ser direcionado para os meses de baixa oferta de caquis no mercado. Isso seria possível pelo fato de se poder induzir o processo de floração da planta.

Nesse sentido, eles saúdam alguns produtores de Petrolina que, a partir dos experimentos realizados pela Embrapa, iniciaram o plantio comercial do caquizeiro, o que representa uma opção nova para a renovação da fruticultura nordestina, cujo valor bruto de produção (VBP) alcançou R$ 7,7 bilhões em 2015, como explicitado na tabela abaixo.

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Veja também
> fruta temperada no sertão nordestino;
> fruta de clima temperado no semiárido abre nova perspectiva para produtores;
> fruta temperada no sertão 2: semiárido mineiro planta morango.

PESQUISA, SURPRESA E CETICISMO

O pesquisador Paulo Roberto Coelho Lopes, da Embrapa Semiárido, costuma lembrar da surpresa e ceticismo de colegas ao falar de suas experiências com maçã, pêssego e mangostão em plena caatinga. Quando apresenta as fotos das maçãs colhidas em Petrolina, margens do rio São Francisco, a 640 km do Recife, e a 3.000 km do Rio Grande do Sul, a reação, invariavelmente é de incredulidade ou ironia.

--Está brincando! Isso é fotoshop...

Aí é preciso jurar por Deus e todos os apóstolos para vencer o estupor e ceticismo de colegas e plateia.

Ele conta que antes o ceticismo já havia engavetado seu projeto de pesquisa no Banco do Nordeste (BNB), principal agência financeira nordestina, que dispõe de um fundo específico para apoiar pesquisadores.

É que algum analista, menos ousado que Paulo achou por bem "deixar dormindo" na gaveta aquela proposta de experiência com maçã e pêssego no sertão. Ficou lá até que um dia o proponente se encontrou com o agrônomo Jose Maria Marques, então à frente do tal fundo gerido pelo BNB (Fundeci). No intervalo de um evento do qual ambos participavam em Petrolina, Paulo o convidou para visitar a Embrapa local e lhe mostrou os canteiros com as macieiras floridas no campo experimental de Bebedouro, onde existe uma coleção de plantas de macieira, desde 2007.

Foi o suficiente para convencer o visitante a mandar analisar o processo engavetado.

Para quem continua céptico, ele conta a história de um colega pesquisador da Bahia, Orlando Passos, que nos idos de oitenta ouvia gaúchos e paulistas desdenhando das pesquisas sobre uva e laranja na Região.

Uns e outros diziam que a uva, quando muito , serviria para aproveitar como passa e a laranja como xarope.

Hoje, a uva do vale do São Francisco abastece Estados Unidos e Europa e a laranja de Sergipe supre as esmagadoras paulistas de vez em quando.

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