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Agroindústria de frutas e hortaliças no nordeste: suprimento de matérias-primas e embalagens

José Aílton Nogueira dos Santos[1], Maria Simone de Castro Pereira Brainer [2], Wendell Márcio Araújo Carneiro [3];

As condições edafoclimáticas do Nordeste, apropriadas para suprir com regularidade, qualidade e quantidade as demandas de frutas e hortaliças das agroindústrias de processamento dessas matérias-primas, fomentaram a instalação de unidades agroindustriais, que se expandiram na região, com maior concentração na Bahia, Ceará, Pernambuco e Rio Grande do Norte. A matéria-prima utilizada pelas agroindústrias é geralmente produzida na mesma localidade ou próximo a ela. Resumindo: os maiores supridores de matérias-primas para as agroindústrias alimentares da área de atuação do BNB localizam-se nos estados mencionados.

Entretanto, algumas agroindústrias são abastecidas também por produtos de outros estados, regiões ou países, tendo como causas principais:

- a diversificação da linha de produção, com inclusão de espécies nativas (principalmente cajá, jenipapo, jaca, bacuri, umbu, açaí e cupuaçu) ou de clima temperado (uva e pêssego);

- a diferenciação sazonal das safras entre estados;

- o fato de o Nordeste não produzir algumas matérias-primas, como, por exemplo, componentes de condimentos (principalmente cominho, orégano, boldo e alho).

No Maranhão e no Piauí, que não têm tradição de fruticultura e horticultura em escala comercial, as agroindústrias de alimentos derivados de frutas e hortaliças apresentam-se bastante dependentes de matérias-primas de outros centros. As agroindústrias maranhenses são supridas por outras regiões do Brasil, como o Centro-Oeste (Goiás), o Norte (Pará e Tocantins) e o Sudeste (Minas Gerais e São Paulo), enquanto as agroindústrias piauienses recorrem principalmente aos estados da Bahia, Ceará, Pará e Pernambuco.

Dentre as matérias-primas adquiridas do exterior pelas agroindústrias, destacam-se o alho in natura, a pasta de alho, o milho (usado no processamento do colorau) e a polpa de uva, vindos da Argentina e do Chile; e a amêndoa de cacau, proveniente da Costa do Marfim, Gana e Indonésia.

O Nordeste também não foi capaz de reduzir a dependência com relação ao suprimento de conservas de alimentos como azeitona, ervilha, cogumelo, alcaparra, milho, palmito, aspargo, picles, molhos e extratos de tomate. O suprimento desses itens vem sendo realizado pelas agroindústrias instaladas no Centro-Sul, especialmente em São Paulo.

Suprimento em declínio

Nessa pesquisa, observou-se que o suprimento de matérias-primas in natura próprias vem declinando em todas as categorias de agroindústrias no Nordeste, tornando-as dependentes de terceiros, já que a produção local restringe-se a poucas agroindústrias e em níveis modestos. Verificou-se, ainda, que a aquisição de matérias-primas semiprocessadas por terceiros, utilizadas na produção de alimentos prontos para consumo, é uma prática em ascensão entre as médias e grandes agroindústrias.

Na maioria dos casos, a comercialização de frutas e hortaliças junto às agroindústrias no Nordeste não está fundamentada em contrato prévio, com definição de época de entrega e preço. A transação comercial toma por base o preço arbitrado pela empresa adquirente, sem, contudo, respaldar-se em contratos formais prevendo direitos e obrigações das partes.

Historicamente, registram-se conflitos de interesses entre a agroindústria e o fruticultor, envolvendo aspectos como os preços pagos e a qualidade da matéria-prima. Para uma análise desse contexto, foram colhidos vários depoimentos de agroindustriais, fruticultores e técnicos, a partir dos quais podem ser tiradas algumas conclusões, conforme resumido a seguir:

• Na visão do agroindustrial, falta ao fruticultor nordestino o profissionalismo necessário para o cumprimento de obrigações contratuais relacionadas à qualidade da fruta (esta é selecionada e comercializada para consumo in natura), implicando a redução do rendimento industrial, além de afetar a programação de processamento da agroindústria;

• Na visão do fruticultor e suas organizações, os preços estabelecidos pela agroindústria são insuficientes para remunerar os custos de produção das frutas, resultando na adoção de práticas agrícolas responsáveis por quedas acentuadas de produtividade e qualidade das frutas;

• Na visão dos técnicos, os ganhos obtidos com o processamento das frutas são apropriados somente pelos agroindustriais, ainda que os preços de mercado fiquem acima da média.

Tais informações não são novidades, nem a dependência da agroindústria por matéria-prima de terceiros tem sido capaz de solucionar os crônicos conflitos historicamente registrados entre as unidades de processamento e os produtores rurais e suas organizações, relacionados a preços, qualidade e regularidade de suprimento, cujos pontos críticos ainda dependem de solução.

Cenário de integração

Entretanto, observam-se avanços no relacionamento entre a agroindústria da primeira e a da segunda transformação , no tocante à regularidade no fornecimento e à especificidade da matéria-prima semiprocessada. O cenário sinaliza uma crescente integração das agroindústrias responsáveis pela primeira transformação das matérias-primas (produção de polpa, sucos concentrados, manteiga, liquor e pó de chocolate e amêndoa de castanha de caju) com aquelas responsáveis pela segunda transformação, que resulta na produção de alimentos prontos para consumo (sucos, doces, amêndoas de caju, chocolate e achocolatado, molhos, extratos e purê de tomate).

A comercialização das frutas e hortaliças junto às agroindústrias, na maioria das vezes, se dá por meio de atravessadores. Esse elevado nível de intermediação deve-se principalmente à desorganização em que se encontram os mini e os pequenos produtores no Nordeste, agravada pela falta de escala de produção, na maioria dos casos em volume individual inferior à capacidade de transporte de um veículo de médio porte.

O momento da negociação entre o produtor e o intermediário varia de acordo com o tipo de matéria-prima (in natura ou minimamente processada) e se diferencia de estado para estado, podendo, portanto, ocorrer antes, durante e após a colheita, e ainda estender-se até a data de entrega das frutas e hortaliças à agroindústria.

Quando trata com produtores rurais, geralmente o intermediário compra e vende sem troca de informações técnicas, limitando-se o seu trabalho a uma operação meramente comercial. Já nas tratativas com a agroindústria, ele recebe retorno com relação à qualidade dos produtos na fase de pós-venda.

A abrangência da área de atuação do intermediário tanto pode restringir-se aos municípios próximos das agroindústrias, como pode alcançar outros estados do Nordeste ou ainda outras regiões do país, algumas vezes com a ajuda de parentes residentes nas áreas produtoras.

Quando não tem interesse na transação, o próprio intermediário põe a agroindústria em contato com o produtor, para negociação direta. A agroindústria beneficia-se com a compra direta dos produtores, principalmente quando há dupla negociação, ou seja, a agroindústria compra o produto in natura e vende o processado ao produtor, para consumo próprio ou revenda.

A forma de pagamento mais comum é a parcelada, podendo ser semanal, quinzenal e mensal, a depender das características da fruta. Raramente o pagamento ao produtor é realizado à vista, embora a modalidade esteja mais presente nas espécies nativas de fruteiras com safra de curta duração, a exemplo de cajá, jenipapo, tamarindo e umbu.

Geralmente, o transporte da matéria-prima para a agroindústria fica por conta do fruticultor, ou do intermediário, se for o caso. Apenas alguns médios e grandes produtores rurais contam com veículos próprios para o transporte até a agroindústria.

Dependência de outros centros

Quanto ao suprimento de outros insumos, embalagens e rótulos para os alimentos processados pelas agroindústrias do Nordeste apurou-se na pesquisa que ainda há dependência de suprimentos do Sul e do Sudeste, apesar de alguns estados nordestinos já fabricarem sacos plásticos e caixas de papelão para alimentos e uma das agroindústrias pesquisadas produzir parte de suas embalagens. Em geral, são os estados de São Paulo, Santa Catarina e Rio Grande do Sul que atendem às demandas mais específicas de determinado tipo de embalagem (garrafas, sachês e copos), alguns ácidos e outros insumos.

Segundo alguns empresários, há oligopólio concentrado no mercado brasileiro para alguns tipos de embalagem, já que duas fabricantes empregam a mais moderna tecnologia de acondicionamento de alimentos perecíveis.

Com relação aos demais insumos, como açúcar, álcool, conservantes e materiais de limpeza, a maioria já é fabricada e encontrada no Nordeste, de maneira que a escolha do mercado para a aquisição tem como base o melhor em termos de preço ou condições de pagamento. Vale ressaltar que, nesse caso, a forma mais praticada é o pagamento à vista.

Para as pequenas e microagroindústrias, um dos principais problemas enfrentados na aquisição de embalagens e rótulos/etiquetas é sua pequena escala de produção, que não alcança a quantidade mínima de venda exigida pelos fornecedores, representando um custo médio de 30% a 40% do valor total dos alimentos, dependendo do tipo de material utilizado.

A dependência das agroindústrias nordestinas em relação às embalagens e rótulos oriundas do Sul e do Sudeste implica elevação de custo de produção (transporte e tributação) e evasão de divisas do Nordeste, comprometendo a competitividade das empresas da região.

Vale ressaltar que as micros e pequenas agroindústrias alimentares constituem pilares de sustentação da economia nos estados do Nordeste, por força de sua capilaridade e do elevado número de unidades fabris, bem como de sua capacidade de criar empregos em cidades de pequeno porte. Contudo, é justamente nessas categorias de empresas que se concentram as maiores vulnerabilidades do setor agroindustrial de alimentos. Uma delas diz respeito aos elevados níveis de ociosidade, que, em casos extremos, ocasiona a desativação definitiva da agroindústria.


[1] Engenheiro Agrônomo, Especialista em Desenvolvimento Rural Integrado e Consultor.

[2] Engenheira Agrônoma, Mestra em Economia Rural e Pesquisadora do BNB-ETENE.

[3] Economista, Mestre em Economia Rural e Pesquisador do BNB-ETENE.

[4] A primeira transformação refere-se à primeira fase de beneficiamento da matéria-prima agrícola e a segunda transformação refere-se ao beneficiamento de produtos provenientes da primeira transformação.

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