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Cadeia produtiva do caju no Nordeste brasileiro

Em seu contexto mais amplo, a cadeia produtiva do caju compreende um conjunto de atividades que geram um grande número de produtos intermediários e finais. O principal produto final gerado é a Amêndoa da Castanha de Caju (ACC). Do processamento da castanha (verdadeiro fruto) resulta também o Líquido da Castanha de Caju (LCC), de elevado valor comercial. O pedúnculo, por sua vez, possibilita a produção de bebidas (notadamente o suco e a cajuína) e outros produtos (principalmente doces e ração animal). O caju é ainda vendido como fruto de mesa. Entretanto, estima-se que mais de 90% dos pedúnculos são desperdiçados, ou seja, trata-se de um subproduto pouco aproveitado na cadeia da produção de castanha.

A indústria de insumos do caju compreende principalmente as atividades de produção de fertilizantes, defensivos e mudas. A produção de mudas de cajueiro anão apresenta-se como uma atividade em expansão e rentável, embora para um grupo restrito de produtores. Observações de campo indicaram a existência de barreiras à entrada nesse mercado.

Na produção rural, há grande heterogeneidade em termos de nível tecnológico. Destacam-se os sistemas voltados para o cultivo tradicional do cajueiro gigante e aqueles direcionados para o cultivo de variedades recentes do cajueiro anão, desenvolvidas pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa). A maioria das plantações de cajueiro gigante encontra-se na fase final de seu ciclo de produção, muitas delas com cerca de trinta anos, resultado dos programas de incentivos governamentais implantados no Nordeste nos anos 1970. As plantações de cajueiro anão são recentes e têm sido incentivadas como alternativa de reposição dos velhos cajuais. A cajucultura tem sido desenvolvida tanto em pequenas quanto em grandes e médias explorações rurais.

A maioria dos produtores de caju fornece a castanha. Ainda nas propriedades rurais, a castanha é separada do pedúnculo, secada ao sol e vendida, em sua grande maioria, para corretores (intermediários). Grandes produtores, devido a sua capacidade de obter maior escala na entrega, conseguem vender castanha diretamente para a indústria de processamento.

As explorações rurais podem destinar o caju para quatro principais atividades na sequência da cadeia de produção: para os corretores de castanha (intermediários); diretamente para a indústria processadora de castanha; para a indústria de processamento de pedúnculo (sucos e doces); e para os distribuidores do caju de mesa.

O processamento do pedúnculo e a distribuição de caju de mesa são atividades que atendem exclusivamente ao mercado interno, enquanto as atividades relacionadas com o processamento da castanha são direcionadas tanto para o mercado interno quanto para o externo. Em algumas regiões desenvolveu-se a indústria da cajuína, aparentemente rentável. Observou-se que no Piauí haveria mercado suficiente para expandir essa atividade, o que parece não se confirmar em outros estados, onde é menor a demanda desse produto. Alguns produtores fabricam também mel e rapadura de caju para o mercado da merenda escolar.

O processamento da castanha do caju constitui a principal atividade. Tem sido realizado por grandes unidades industriais e minifábricas. As minifábricas são mais intensivas em mão-de-obra, enquanto as grandes unidades industriais possuem etapas mecanizadas, notadamente o corte, o que impõe diferenças em rendimento de produto e subprodutos. Por exemplo, o corte manual, utilizado nas minifábricas, resulta em melhor rendimento em termos de ACCs inteiras, enquanto nas grandes unidades industriais há melhor aproveitamento de LCC, que é destinado às indústrias de materiais de fricção e química.

No triênio 2005–2007 a produção anual média brasileira de castanha de caju foi de 190.968 toneladas. Nesse período, o volume anual médio de ACC exportado pelo país foi de 45.548 toneladas. Portanto, pode-se concluir que 88% do volume produzido de ACC nesse período foram exportados, sendo o restante destinado ao mercado interno. Os principais compradores no mercado internacional são os brokers e a indústria de alimentos. Esta última realiza a torra e a salga para venda no mercado de snacks, bem como utiliza o produto na composição de outros alimentos (panificação e confeitaria, como doces, bolos, biscoitos e sorvetes). No mercado interno, a ACC tem destino semelhante, mas a presença de intermediários é menos proeminente, e as unidades de processamento domésticas (grandes empresas e minifábricas) assumem as etapas de torra e salga.

Cenário internacional: Vietnam e Índia na liderança

As exportações mundiais de ACC alcançaram, em 2006, US$ 1,3 bilhão, correspondente a 280 mil toneladas. Os maiores exportadores mundiais foram a Índia o Vietnã e o Brasil. Naquele ano, a Índia foi responsável por 39% das exportações, seguida do Vietnã, com 29%, ocupando o Brasil a terceira posição, com 15%. Entre 2002 e 2006, o valor das exportações cresceu 9% ao ano, enquanto o volume aumentou 16% ao ano. Destaca-se o acelerado crescimento das exportações do Vietnã, que desde o início da década deslocou o Brasil da segunda posição.

Os maiores importadores mundiais de ACC são os Estados Unidos e a União Européia. Em 2006, os EUA foram responsáveis por 43% das importações mundiais, enquanto a União Européia importou 27% .

Além de grandes produtores de castanha e ACC, bem como grandes exportadores de ACC, a Índia e o Vietnã são também os maiores importadores de castanha. Em 2006, esses dois países foram responsáveis por 88% das importações mundiais. Os principais fornecedores são os países africanos e a Indonésia, que abastecem principalmente a indústria processadora da Índia.

A produção de ACC resulta do processamento da castanha de caju a uma razão técnica de 0,21, ou seja, para cada quilograma de castanha, tem-se como resultado do processamento 210 gramas de ACC. Assim, para atender ao crescimento da demanda mundial de ACC, a produção de castanha teve que crescer em ritmo semelhante. Levantamentos da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) apontam que a produção mundial de castanha cresceu de 733.428 toneladas para 3.186.039 toneladas entre 1990 e 2007. Vietnã, Índia, Brasil e alguns países africanos (destacando-se Benin, Burkina-Faso, Costa do Marfim, Gana, Guiné-Bissau, Moçambique, Nigéria e Senegal) são os maiores produtores mundiais. Deve-se registrar o crescimento mais acelerado do Vietnã desde fins dos anos 1990, sendo esse país atualmente o maior produtor mundial. Mais recentemente, assiste-se também ao crescimento da produção africana, impulsionada por programas para expansão da cultura e da capacidade de processamento implementados por alguns países. Dados recentes divulgados pela FAO indicam que a Nigéria, maior produtor africano, teria ultrapassado a Índia, passando a ser o segundo maior produtor mundial.

O Brasil tem também apresentado crescimento de sua produção nos últimos anos, mas em ritmo inferior ao registrado pelos maiores produtores. Comparando-se a produção média brasileira do triênio 2005–2007 com a do triênio 1995–1997, observa-se um crescimento de 20%, bem inferior aos 305% observados no Vietnã, aos 49% registrados na Índia e aos 473% verificados na Nigéria. A área colhida também cresceu significativamente durante esse período, embora também em menor escala no Brasil e na Índia, que já eram grandes e tradicionais produtores. O crescimento da produção tem sido viabilizado pela adoção de inovações tecnológicas (novas variedades, espaçamento e reforma de cajuais antigos, via renovação de copas). Como decorrência dessa modernização, observa-se também o aumento da produtividade. No Vietnã, cuja produtividade é a maior dentre os principais produtores mundiais, a produção média por hectare saltou de 1.204 kg para 2.705 kg durante o período acima referido, correspondendo a um aumento de 125%; na Índia, aumentou de 625 kg para 692 kg (10,7%), enquanto na Nigéria mais do que triplicou, passando de 576 kg para 1.971 kg. No Brasil, o rendimento cresceu apenas 3% durante o período mencionado, mantendo-se o país com o menor índice dentre os principais produtores: 269 kg/ha. Apenas em período recente, a produtividade no país cresceu mais aceleradamente.

Produção de caju no Ceará, Piauí e Rio Grande do Norte

A cajucultura comercial foi implantada no Nordeste na década de 1970, com o apoio da Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste (Sudene). Utilizaram-se na época dois mecanismos de incentivo fiscal: o Fundo de Investimentos Setoriais (Fiset), para reflorestamento com cajueiros, e o Fundo de Investimentos do Nordeste (Finor), para o desenvolvimento da indústria processadora de castanha. Esses incentivos possibilitaram a plantação de aproximadamente 300 mil hectares de cajueiro gigante (que hoje já começam a dar sinais de esgotamento), e a implantação das dez grandes indústrias processadoras de Fortaleza, Mossoró e Teresina. Em Serra do Mel, no Rio Grande do Norte, o governo estadual fez uso de um instrumento adicional de incentivo: a colonização rural.

A cajucultura cumpre importante função na economia rural nordestina: a de complementar a renda do agricultor com um fluxo monetário na fase do ano em que não há produção de outro item agrícola. O cajueiro produz nos períodos de estiagem, de agosto a dezembro, época normalmente de entressafra. Em algumas cidades nordestinas, a cajucultura constitui a única fonte de recursos monetários dos agricultores pobres, que destinam o restante da lavoura temporária (arroz, feijão, mandioca, etc.) para o consumo, vendendo somente a castanha de caju. Trata-se, portanto, de uma cultura também adaptada às condições socioeconômicas da agricultura familiar.

Entre os estados pesquisados, o Ceará é o que possui as maiores plantações e o que gera o maior valor da produção nessa cadeia (Gráfico 1).

Gráfico 1 – Distribuição regional da produção

distribuicao-regional-de-producao

Fonte: Censo Agropecuário IBGE 1995-1996, 1998.

A análise do mercado internacional possibilita inferir a perda de parcela de mercado pelo Brasil para os concorrentes em termos de produção de ACC. Os dados estatísticos evidenciam que a produção vem crescendo de forma lenta e tênue nos últimos onze anos, registrando-se melhor desempenho no Ceará e no Piauí e certa estabilidade no Rio Grande do Norte. Em 2006 a produção somada dos três estados superou as 220 mil toneladas, volume superior ao produzido no início do período analisado.

Na última década foram implementadas políticas governamentais de incentivo à adoção de novas tecnologias, principalmente voltadas para o plantio de novas variedades desenvolvidas pela Embrapa. Os rendimentos por hectare passaram de uma média de 250 kg em 1995 para 350 kg em 2006, com avanço mais significativo no Rio Grande do Norte.

A constatação de que um dos principais entraves ao desenvolvimento da cajucultura seria o baixo rendimento dos cajueiros, a maioria há quase 30 anos em produção, levou a Embrapa a investir em novas tecnologias, principalmente a do cajueiro anão precoce (CP76, Faga 1, Faga 11, entre outras). Para viabilizar a expansão do caju com base nessas variedades, em 1998 formou-se um grupo de trabalho denominado Plataforma Caju, com o apoio do Sebrae, Embrapa, Faec, Fiec e BNB.

Como parte desse acordo, o BNB aumentou consideravelmente a alocação de crédito para plantio de cajueiro anão precoce e para abertura de fábricas de processamento de castanha (minifábricas e cooperativas). Por meio do Programa Nacional de Agricultura Familiar (Pronaf), o BNB vem também incentivando o plantio de cajueiro anão, dando garantia de assistência técnica, pela Emater e ONGs. Mais recentemente, a Fundação Banco do Brasil tem investido recursos consideráveis na abertura de minifábricas e cooperativas centrais de comercialização, principalmente na região da Serra do Mel (RN).

Conclusões

O cultivo de caju, bem como a extração e o processamento de castanha constituem atividades tradicionais no Nordeste, havendo registro da adoção dessa prática há mais de cinquenta anos. A extração e o processamento de castanha de caju constituem atividades com grande potencial de geração de emprego, tanto na propriedade rural quanto nas agroindústrias. A geração de renda e divisas também é importante, haja vista a significativa demanda dos mercados internacionais pelos diversos tipos de castanha.

A colheita da castanha é uma atividade manual, razão pela qual requer a utilização intensiva de mão-de-obra. As etapas de seleção e corte das castanhas são também intensivas em mão-de-obra. As amêndoas, por sua vez, também requerem trabalhos manuais, como a despeliculagem e a classificação. Verifica-se que mesmo a agroindústria requer considerável quantidade de mão-de-obra para complementar e auxiliar algumas etapas atualmente mecanizadas.
A castanha de caju é uma das poucas "cash crops" de que atualmente dispõem os agricultores no Nordeste, especialmente no Ceará, no Piauí e no Rio Grande do Norte. A atividade tem gerado receita da ordem de US$ 250 milhões/ano para o Nordeste.

Apesar dessas vantagens, e levando-se em conta que a área plantada com cajueiros tem se expandido, a oferta de castanha de caju proveniente do Nordeste, no entanto, não tem sido suficiente para atender a uma demanda crescente do produto. As variedades de cajueiro gigante apresentam baixa produtividade. A variedade conhecida como cajueiro anão precoce, desenvolvida pela Embrapa, apresenta maior produtividade. Contudo, o pacote tecnológico associado a essa variedade requer intensiva utilização de insumos. Em virtude disso, boa parcela dos produtores não tem adotado a variedade desenvolvida pela Embrapa, pois o diferencial de produtividade e a receita adicional correspondente não são atraentes.

A produtividade da cajucultura no Nordeste é baixa. Parte dos agricultores não realiza tratos culturais, por não terem acesso a assistência técnica e capacitação nem ao crédito para custeio. O apoio creditício tem se pulverizado entre micro e pequenos produtores, sem escala suficiente para introduzir modificações técnicas importantes.

O fortalecimento da atividade no Nordeste dependerá da articulação entre as instituições de pesquisa, assistência técnica, capacitação, organização associativa, crédito, além do estabelecimento de políticas públicas que valorizem o consumo de produtos locais e dos provenientes da agricultura familiar.

Por  Carlos Enrique Guanziroli²

Hildo Meirelles De Souza Filho³

Aírton Saboya Valente Júnior4

 


 

1 O presente texto está baseado no "Estudo da Cadeia Produtiva do Caju", desenvolvido em 2008 pelo Banco do Nordeste do Brasil S/A (BNB) em parceria com o Instituto Interamericano de Cooperação para a Agricultura (IICA).

2 Professor da Universidade Federal Fluminense e Consultor do IICA.

3 Professor da Universidade Federal de São Carlos e Consultor do IICA.

4 Coordenador da Célula de Estudos e Pesquisas Rurais e Agroindustriais, do Escritório Técnico de Estudos Econômicos do Nordeste (Etene), do BNB.

5 Como o Censo de 2006 ainda não tinha sido divulgado na época desta pesquisa, foram utilizadas, provisoriamente, as informações do Censo de 1996, que serão substituídas quando da publicação do mais recente. Acredita-se, no entanto, que por se tratar de variáveis estruturais, não tenha havido mudanças radicais nos indicadores analisados neste estudo.

6 São culturas intrinsecamente ligadas ao mercado, gerando um fluxo monetário para os produtores.

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