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CULTURA DE ORQUÍDEAS: PARA ALÉM DO HOBBY, UMA OPORTUNIDADE DE NEGÓCIOS

As rosas e as orquídeas são as flores mais tradicionais e de maior apelo junto ao consumidor final. Além da profusão de cores, as orquídeas têm sua força na mística e interação, recebendo na literatura científica o status de "biologicamente eternas" pois crescem, florescem, se reproduzem e não morrem. Há plantas que acompanham gerações e seu cultivo é relativamente fácil, mesmo para iniciantes.

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Por José Newton Pires Reis (*) para a Agência Prodetec.

Encarado até recentemente como um hobby – verdadeira terapia para algumas pessoas – o cultivo de orquídeas começa a assumir feições de um bom negócio e consolida-se como importante atividade econômica em várias regiões do país, especialmente no interior de São Paulo.


Embora ainda exista um longo caminho a trilhar no que tange aos procedimentos de comercialização, desenvolvimento de novos nichos de mercado e criação de programas de estímulo à demanda doméstica, a cultura da orquídea pode significar uma boa alternativa de geração de emprego e renda e de combate à pobreza rural.

Deve-se destacar que o mercado para floricultura ainda tem espaço para crescer, dado o baixo consumo per capita, quando comparado ao de países desenvolvidos e até de vizinhos sul-americanos, podendo se consolidar como uma atividade competitiva sustentável para um contingente significativo de pequenos produtores.

Nesse particular, vale ressaltar que as vantagens oferecidas pela agricultura familiar – no que se refere ao custo de transação envolvido na mão de obra – não garante sucesso na exploração da floricultura em geral, uma vez que a competitividade do setor está associada à adoção de tecnologias modernas, na produção, pós-colheita e nas vendas, e ao desenvolvimento de sistemas logísticos para a distribuição do produto tanto no mercado doméstico como internacional.

No Ceará, um grande produtor e exportador de rosas, a cultura comercial de orquídeas ainda é praticamente desconhecida, mas poderia se transformar em excelente oportunidade de negócios. Bastaria, para tanto, associar e integrar o tripé agenda de conservação/ educação ambiental/desenvolvimento local no aproveitamento do potencial de suas regiões serranas, ambientes naturalmente saudáveis para esse tipo de atividade.

O Estado detém condições geoclimáticas favoráveis ao cultivo de vários grupos botânicos, aí incluídas as orquídeas da espécie Hadrolaelia SP que aqui registraram bom desempenho de crescimento comparado a ensaios realizados em Atibaia (SP), como indica o professor. Roberto Jun Takane, do Departamento de Fitotecnia da Universidade Federal do Ceará.

Teoricamente, a espécie poderia florescer com dois anos de cultivo, no Ceará, metade do período nas condições conduzidas em São Paulo, o que significa ganhos extraordinários quanto a custos de produção.

Vale salientar que no Ceará se encontram belas variedades de orquídeas, a exemplo da Cattleya labiata Lindl, de grande relevância na orquideocultura mundial, dada a sua inclusão como planta ornamental em si, e, indiretamente, como participante em milhares de cruzamentos genéticos que trouxeram a esse setor uma infinidade de híbridos de alta qualidade e extensivamente cultivados em todo o mundo.

Infelizmente, o ambiente comum da espécie, as serras úmidas cearenses, continua sendo descaracterizado em virtude da exploração agropecuária e madeireira. Essa ação e a falta de um manejo adequado tem resultado em perdas de parte desse patrimônio paisagístico, cujos componentes bióticos e abióticos de seus habitats estão consideravelmente degradados. Em grande parte, talvez até irreversivelmente, prejudicando a sobrevivência da Cattleya e de outras varriedades em território cearense.

Consequência da falta de conservação e educação ambiental, bem assim da ausência de políticas de desenvolvimento local, essa agressão parte, sobretudo, do pequeno produtor de banana em regime de sequeiro. Sem informação adequada e acesso à assistência técnica, ele vem contribuindo para desbastar a vegetação nativa, ampliar o processo de erosão do solo e comprometer o ciclo de produção da orquídea.

O trágico nesse quadro é que o uma única planta da espécie Cattleya "epífita" arrancada para dar lugar ao bananal valia no mercado de Fortaleza cerca de R$ 50,00 enquanto o milheiro da banana prata variava entre R$ 15,00 e R$ 60,00 (preços de atacado CEASA, 2011, quando a pesquisa foi feita).

Potencial cearense

Como já enfatizado, a região Nordeste e, particularmente o Ceará, possui grande potencial para a floricultura, sendo hoje um dos maiores produtores e exportadores do segmento, em particular de rosas e flores frescas. Os plantios, a maioria localizada na serra de Baturité e no planalto da Ibiapaba, atendem o mercado varejista de Fortaleza e outras cidades.

No caso específico da orquidoflora cearense, o engenheiro agrônomo Wilson Lima Verde, diretor técnico-científico da Associação CEO, estima que ela agregue cerca de uma centena de espécies, embora registros oficiais contabilizem apenas 54 espécies pertencentes a 28 táxons genéricos. Segundo ele, a atividade pode se beneficiar por similaridades e extensões de tais conhecimentos, servindo de benchmarking para exploração e expansão desse novo setor.

Um problema tradicional no Ceará em relação ao segmento é a ausência de uma cultura produtora. Nas poucas iniciativas de interesse comercial, a paixão do produtor leva-o a se comportar mais como um colecionador do que como um empreendedor. Contudo, as experiências produzidas e acumuladas sobre a estrutura, dimensões e funcionamento da cadeia produtiva de rosas no estado pode beneficiar o setor de orquídeas de corte e envasadas, bem como de mudas, disputadas por exigentes e remuneradores mercados nacionais e internacionais.

O fato é que o mercado cearense de orquídeas ainda é imaturo e praticamente inexistente, a despeito da enorme riqueza natural existente. A experiência local de produção ainda é pequena – seja de plantas prontas para vasos ou para corte no segmento industrial - e, no geral, não acompanha os padrões de qualidade e competitividade de preços em relação às áreas produtoras mais tradicionais. Dependente do mercado paulista, o segmento é considerado uma atividade secundária na economia local e pouco influente no mercado brasileiro, seja como consumidor ou produtor. A maioria das plantas disponíveis para o consumidor no Ceará é oriunda essencialmente dos municípios grande São Paulo.

Atualmente, boa parte das floriculturas cearenses trabalha com este tipo de planta o ano inteiro. Embora não existam dados agregados para avaliar o consumo no estado, o mercado é pouco expressivo e apresenta baixo potencial de investimento e pequena escala de produção. Também se caracteriza pela falta de especialização e profissionalismo; irregularidade na oferta, baixo consumo, além de comercialização concentrada em poucas variedades e varejistas pouco especializados.

Praticamente inexiste um fluxo e um canal formal de comercialização para a orquideocultura no Estado, como também não há órgãos ou instituições que captem ou divulguem dados que reflitam realidades e tendências de mercado, seja em termos de quantidades ou origens dos produtos ofertados, seja em termos de preços, sazonalidade da oferta e condições e ou previsões para o abastecimento.

Em que pese esse panorama, o cultivo de orquidáceas evoluiu para uma atividade economicamente viável, destacando-se os gêneros Cymbidium, Dendrobium, Phalaenopsis, Cattleya, Laelia e Oncidium, conforme ressaltam C.S.Hew e J.W.H.Young, em The physiology of tropical orchids in relation to the industry (World Scientific, Singapore, 1997. 331 p). Isso se deve a fatores como beleza, variedade em tamanho, forma, cor e fragrâncias de suas flores, bem como a elevação da renda da população, a facilidades no acesso aos produtos, o apelo ambiental, a publicidade que acontece naturalmente com as diversas exposições e interesse da grande mídia pelo assunto.

Contudo, o desenvolvimento sustentável da atividade passa pela adoção de um conjunto de políticas e ações no âmbito federal e estadual. O setor tem potencial para emergir como uma cadeia produtiva de sucesso. A velocidade e o alcance desse crescimento dependem da remoção de uma série de gargalos e providências complementares, dentre as quais se destacam as seguintes:

• Melhoraria da coleta de informações sobre produção para facilitar a coordenação de ações e equacionar a oferta diante da demanda, minimizando entraves ao fluxo de produtos e efeitos nocivos de preços.
• Realização de estudos exploratórios sobre o comportamento da demanda interna e seu potencial consumidor por região, visando ao desenvolvimento do mercado doméstico.
• Idem quanto às tendências dos mercados consumidores no campo da arte floral, da decoração, do paisagismo e da jardinagem. A diferenciação do produto onde a orquídea é vendida como um presente ou peça de decoração é um dos fatores para sustentabilidade no mercado extremamente competitivo de floricultura.
• Qualificação e profissionalização dos recursos humanos dessa cadeia produtiva através de cursos, palestras, viagens, intercâmbios e outros afins.
• Desenvolvimento e difusão do conhecimento científico e tecnológico apropriado para o setor, em cooperação com universidades, institutos de pesquisa e empresas especializadas.
• Adequação do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (PRONAF) à realidade do setor e às condições da atividade, de ciclo mais longo que a maioria dos cultivos temporários comuns no País, e mais exigente em investimentos e prazos de pagamento.
• Adoção de modernas técnicas de gerenciamento e venda da produção, especialmente o leilão eletrônico e a venda pela internet. Atualmente, os negócios e-commerce representam uma das mais fortes tendências para o crescimento dos negócios no ramo da orquideocultura e para a conquista de novos clientes.
• Implementação de programas específicos para atender o mercado internacional, ávido, principalmente, por espécies nativas, e disposto a pagar preços compensatórios.
• Melhoria da infraestrutura de apoio com destaque para as condições referentes à logística de transporte nos locais de embarque dos produtos.
• Melhoria da assistência técnica para o setor.
• Execução de programas para varejistas, estimulando a ampliação de pontos de vendas e sua padronização.
• Desenvolvimento de uma cultura ligada à produção, circulação e consumo das orquídeas, principalmente frente ao seu apelo ecológico e social.

(*) Este endereço de e-mail está protegido contra spambots. Você deve habilitar o JavaScript para visualizá-lo. . Agrônomo, Doutor pela ESALQ/USP, Professor do Departamento de Economia Agrícola da Universidade Federal do Ceará.

Para saber mais acesse: CULTIVO DE ORQUÍDEAS: UMA OPÇÃO À AGRICULTURA FAMILIAR? Em http://www.repositorio.ufc.br/ri/handle/riufc/4349?mode=full

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